True Detective: análise da primeira temporada

Por Cláudio Bertode*

Bom, depois de tanto ler matérias afirmando a tese de que havia aparecido uma série inovadora, inclusive discutida em matéria na Superinteressante, Folha de São Paulo e outras grandes mídias; não tive como fugir, e convenci-me de que era hora de conhecer a primeira temporada “The Detective”, a nova série da HBO.

Elenco e autoria

O roteiro é assinado por Nic Pizzolatto, um professor de literatura que é uma grande promessa no mundo dos roteiristas. Na direção temos Cary Fukunaga, no elenco Matthew McConaughev no papel de Rust Cohle, Woody Harrelson dando vida a personagem Martin Hart e das mulheres podemos citar Michelle Monaghan, que interpreta Maggie Hart, esposa do detetive Hart.

 

Poucos episódios e não desperdiçar o tempo da narrativa

Uma inovação é que a série não tem muitos episódios, como estamos acostumados. Uma temporada de apenas 8 episódios e pronto. Com isso, não precisa episódios soltos ou ser prolixo no ato de narrar. Os elementos são todos muito bem colocados, pois cada detalhe se juntará para formar o todo da narração. Cada temporada, fecha-se em uma história completa. E a cada nova temporada, teremos uma nova história, com personagens diferentes. Essa é a grande inovação, não ficar enrolando e enrolando até o ponto de a série não ter mais telespectador e ser tirada do ar. Ou a série não conseguir mais ser terminada de forma digna e honrada como aconteceu com Prision Break ou 24 horas, ou mesmo Lost. Séries que prometiam tanto, mas que não tinham bagagem para muitas temporadas. Ou como Supernatural que, embora seja rotulada como uma série de sucesso, já se tornou forçada a insistência de deixá-la sempre inacabada ao final de cada temporada, suas temporadas repletas de episódios que não chegam a lugar nenhum e apenas um ou outro que se liga a uma trama mais elaborada e, claro, que já se tornou impossível terminá-la sem decepcionar a maioria dos fãs.

A relatividade do tempo

A história se inicia em um tempo muito posterior ao acontecimento dos fatos. Os episódios são narrados em forma de entrevistas com Hart e Cohle. Ao que parece, algumas lacunas fizeram o departamento de polícia, depois de quase 20 anos, querer descobrir o que de fato fez com que os dois abandonassem a carreira de policial, logo depois que desvendam um dos casos mais intrigantes do estado. Eram heróis, com carreiras brilhantes pela frente. O que houve? E por que os dois brigaram e a amizade entre os dois acabou?  Tudo é dado a nós telespectadores, de maneira truncada, em forma de mosaicos, uma vez que só temos fragmentos dos pontos de vista desses dois homens. Vamos juntando migalha por migalha do que em vários planos, e a cada novo episódio, esses dois heróis (será?) vão nos dando. Vamos desvendando o passado e o presente desses dois homens, vamos descobrindo a força e a fraqueza de cada um. Seus medos, seus erros, seus segredos. Esse efeito é muito interessante, pois somos convidados a interagir o tempo todo. Não podemos vacilar, pois somos meio que coautores, um detalhe perdido nos levará a uma interpretação errônea do que aconteceu nesse passado tão distante.

Uma forma de fazer metalinguística usando clichês

O que há de novidade em uma história de investigação policial em que dois detetives que não têm nada em comum são obrigados a trabalhar juntos? Um mundo dominado por figuras masculinas em que mulheres são apenas vítimas ou objetos? Provavelmente, passou por sua cabeça uma infinidade de obras que se encaixam nesse enredo. É a partir desse clichê que encontramos o primeiro ponto interessante da obra. Não que clichês sejam interessantes por si mesmos, mas o autor consegue compensar a narrativa com uma técnica muito apurada. Na verdade, através das personagens de Hart e Cohle temos perspectivas de dois narradores personagens; esse mundo narrado a partir de duas visões é na verdade um sarcasmo metalinguístico em relação ao próprio ato de narrar; ou seja, a trama, a vida dos dois enquanto policiais. A realidade que importa é apenas a realidade narrada, não importa se é machista, a verossimilhança tem de ser garantida. Além do conflito externo, ou trama principal, que é a caçada a um serial killer fetichista, ritualista; temos acesso, em pequenas doses, aos conflitos e interpretações do mundo que está sendo narrado pela perspectiva das duas personagens que narram em forma de entrevista, e jogo da edição faz com que fique mudando o tempo todo a voz que está narrando; essa alternância gera uma polifonia e faz aumentar a tensão do que está sendo narrado. E realmente, somos logo convencidos de que naquele mundo ficcional não haveria lugar para a família perfeita, não há lugar para o bom pai, ou o policial perfeito, não existe espaço para o romantismo que as mulheres desejam. Nos conflitos de Hart, mulheres são como objetos, apenas bundas e peitos, ao seu lado nem coadjuvantes elas conseguem ser. Cohle já perdeu seu casamento, os motivos só vamos descobrir bem adiante na narrativa; um policial que se dedica apenas ao trabalho, uma inteligência e capacidade de dedução acima da média que vai sendo mostrada e atestada a cada episódio. Faz o papel do investigador fanático pelo trabalho que tem um passado obscuro que vai sendo desvendado ao longo da narrativa. Seu ponto de vista às vezes niilista, às vezes filosófico, completa essa metalinguística, uma vez que a obra é um questionamento sobre o próprio gênero policial. É uma narrativa policial (nesse caso vista como linguagem) que, através das perspectivas dos dois investigadores (personagens), questiona o próprio ato de narrar.

Fragmentação e ambiguidade

Uma ambiguidade é instaurada e reforçada aos poucos, uma vez que Cohle é uma personagem que manipula a narrativa, nesse sentido, confunde a perspectiva de nós leitores; notamos que ele pode ter manipulado também a visão dos fatos por parte de Hart, ao termos essa dúvida, começamos a não confiar no que foi narrado até naquele momento; e isso, faz com que enquanto leitores tenhamos que voltar o tempo todo ao início de nossas considerações para novamente tentarmos juntar as peças para realinharmos nossas convicções sobre os fatos. As insinuações por parte dos policiais entrevistadores, reforça essa perspectiva de suspense. O que era para ser só um clichê, começa a ganhar ares de drama, começamos a ficar apreensivos se estamos ou não sendo levados a contemplar sombras desse mundo tão pessimista, mundo de degradação social, crise espiritual, falsidade, conspiração. O efeito desses conflitos internos das personagens é tão forte que chegamos a esquecer, por um momento, a trama principal que é a caçada ao assassino. Somos levados a refletir sobre nossa própria existência. Será que não somos meros clichês, como seres humanos? Será que tudo é uma grande ilusão?

Será que em nossa visão masculina do mundo, as mulheres são meras coadjuvantes que nós olhamos apenas como um objeto para saciar o stress no nosso dia-a-dia? Quem somos nós nesse mundo? Somos mais como Hart, bruto, cego diante da própria felicidade que é ter uma mulher linda, que o ama, duas filhas lindas e não perceber e estragar tudo, sendo incapaz de dialogar com sua esposa e indo buscar na rua mulheres para ter prazer momentâneo e vazio; ou será, que somos Cohle, cegos pelo desejo de fazer bem nosso trabalho, escravos das perdas do passado, será que deixamos nosso trabalho nos consumir a ponto de nem conseguirmos, ás vezes distinguir o real do imaginário?

Considerações

Lembrando que nosso objetivo não era contar e resumir a história, mas apenas uma interpretação e crítica com base em nossa impressão sincera do que percebemos ao assistir a série. Desta feita, não nos resta a não ser afirmar que é uma série que promete. Um roteirista que é bem literário, falas bem elaboradas, trama que pega o simples e transforma, através de inovações técnicas em algo complexo e tenso. Que nos tira da zona de conforto e nos faz pensar, ao mesmo tempo, saboreamos uma bela trilha sonora, boa atuação dos atores que dão vida às personagens. Vale a pena conferir. Melhor não dizer mais nada para não estragar as surpresas que cada espectador poderá descobrir por si mesmo.

* Formado em Letras pela Universidade de Brasília, Cláudio Bertode é Poeta, Cronista e Educador na Rede Pública e Privada do Estado de Goiás.

Claudio Bertode

Formado em Letras pela Universidade de Brasília, Cláudio Bertode é Poeta, Cronista e Educador na Rede Pública e Privada do Estado de Goiás.