Sistema de Cotas: é possível produzir democracia e cidadania com tratamento desigual?

Por Cláudio Bertode

 

Promover a igualdade futura através de um sistema desigual; com essas palavras um dos ministros do STF justificou seu voto a favor de manter as cotas raciais nas universidades.  E por unanimidade o Supremo decidiu manter esse sistema como forma de corrigir um erro histórico; que segundo os defensores mais fervorosos, é um mal necessário para garantir a igualdade futura entre a sociedade brasileira.

Uma verdade merece ser dita, realmente a abolição foi uma farsa. Não podemos concordar com um país que tem mais da metade da população de pele negra ou afrodescendentes, mas que mantém uma elite branca ocupando todas as posições de destaque na sociedade. Olhando por esse ângulo, as cotas raciais parecem ser a melhor saída e, com elas, teríamos a chance e provar que nossa geração pode fazer melhor do que as anteriores. Podemos criar uma imagem de justiceiros para que a sociedade internacional nos inveje, nos achem muito bondosos; pode até nossa presidenta ganhar o famoso nobel que Lula não conseguiu.

Estamos criando um apartheid* do bem? Fingimos que apenas negros sofrem as consequências da má gestão de dinheiro público, fingimos que na escola pública só estudam negros. Fechamos nossos olhos para o fato de que devido à falta de investimentos na educação pública; temos maus resultados, temos jovens com estima baixa e, claro, a escola pública não tem praticamente aprovação nas federais. 

O que estamos fazendo de fato? O preço das cotas raciais é muito alto; é verdade que uma geração tem o direito e o dever de tentar corrigir os erros das anteriores. No entanto, o favorecimento racial e política de bolsas universitárias, claramente não vão resolver os problemas reais envolvendo a exclusão social brasileira. O pior do sistema de favorecimento de uma minoria, nesse caso, é que temos que assumir a inferioridade desse grupo perante os demais. Se temos negros e brancos fadados ao ensino precário que o governo oferece; como que apenas os negros serem favorecidos? Se fosse um sistema de cotas sociais, em que pudéssemos favorecer todos os alunos da escola pública, ainda assim, seria um projeto fadado ao fracasso. O que precisamos é de investimentos na educação. O Governo Federal, os Estados, os Municípios insistem em fingir na mídia que estão investindo, inovando, capacitando, incluindo digitalmente, aplicando enens, somando idebes, etc. Mas nenhum desses entes quer aplicar 10% do PIB na educação, ninguém quer valorizar o professor de verdade. Ninguém quer fazer da carreira de professor uma profissão de destaque na sociedade, para que possamos atrair boas cabeças para a profissão. Não, a política das cotas rende muito mais votos à quem a defende e a implanta.

Até quando vamos continuar segregando para fingir que estamos sendo democráticos e que estamos produzindo uma cidadania invisível?

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(*) O apartheid (Pronúncia em africâner: [ɐˈpɐrtɦəit], separação) foi um regime de segregação racial adotado de 1948 a 1994 pelos sucessivos governos do Partido Nacional na África do Sul, no qual os direitos da grande maioria dos habitantes foram cerceados pelo governo formado pela minoria branca.

Claudio Bertode

Formado em Letras pela Universidade de Brasília, Cláudio Bertode é Poeta, Cronista e Educador na Rede Pública e Privada do Estado de Goiás.