Sensacionalismo na mídia: o preço da audiência no país do Ibope

Por Cláudio Bertode*

A verdade é uma só: somos muito curiosos. E claro, por essa curiosidade quase que inata, desde sempre supervalorizamos as informações, é muito importante e necessário para um ser humano saber. Precisamos, inclusive, ao menos a maioria de nós, complementar nosso lazer lendo, assistindo, ouvindo; muitas famílias têm como único e exclusivo lazer a televisão ou um simples rádio. Existem também pessoas que passam o dia inteiro navegando na internet. No mundo civilizado e globalizado, não temos como sobreviver sem saber o que está acontecendo a nossa volta. A globalização criou a comunidade mundial, não temos mais condições de satisfazer nossa curiosidade pelo boca a boca; nosso desejo de saber evoluiu a ponto de querermos nos informar de tudo um pouco, bem nesse ponto que ficamos dependentes de empresas especializadas televisões, revistas, jornais, blogs, rádio, para nos trazer o que está acontecendo. Essa dependência é que permite a nossa submissão e passividade diante de certos exageros cometidos por essas empresas.

A mídia que já era considerada há muito tempo como um quarto poder em um país; agora ameaça a se tornar o maior de todos os poderes, uma vez que sua força assusta o executivo, impulsiona o legislativo, e mesmo, faz mover o judiciário. No entanto, uma vez que as mídias não têm poder algum se não houver audiência, se não houver leitores ou telespectadores; podemos afirmar que o Ibope, ou audiência é importante, sim, pois um anunciante não iria pagar milhões para uma empresa que não conseguisse mostrar determinado produto para um grande número de consumidores em potencial. A briga pela audiência é na verdade, não uma luta para saber quem leva o selo de melhor empresa de comunicação ou quem oferece a melhor qualidade de informação ou o melhor serviço entretenimento para a comunidade, quando muito é uma luta para saber quem atinge mais consumidores em potencial (a massa) para os produtos anunciados junto com as informações.

A mídia descobriu que queremos mais do que simplesmente o que se passa em nosso bairro, em nossa cidade, em nosso estado, em nosso País. Queremos saber sobre os fatos importantes do mundo todo. A ironia é que essa mesma ação midiática entende que nos deixará cheios de orgulho se nos der um pouco de nós mesmos em suas programações. Por isso ficamos fascinados quando nosso estado é citado, mesmo que seja por um escândalo, ficamos orgulhosos se nossa rua foi mencionada em uma grande reportagem. E muitas vezes, nos pegamos querendo saber, inclusive, os supérfluos, os triviais fatos das vidas alheias; até mesmo os mais corriqueiros detalhes da vida de pessoas que nem conhecemos. É um vício, queremos saber em tempo real. Queremos saber primeiro. Queremos chegar em uma roda de amigos e contar algo que eles ainda não sabem. Claro que também queremos que a mídia nos faça sorrir, que nos divirta, que nos emocione, queremos que ela seja de utilidade pública, esperamos e queremos tudo das empresas de comunicação que nos rodeiam. E é na tentativa de alimentar esse nosso desejo que a mídia age; claro que a ação midiática não é apenas impulsionada por nossa fome, é mais um mutualismo, ou melhor, um oportunismo; na verdade, não importa o espectador, o que está em foco, na verdade é o anunciante; ele é a estrela, o anunciante é o objetivo maior do meio de comunicação, pois os cofres precisam do dinheiro pago pelos produtos anunciados; anunciantes por sua vez precisam de consumidores, daí fazem chantagem com as empresas de comunicação, ou seja, sem audiência, nada de anúncios, sem anúncios portas fechadas: mídia falida e sem poder algum.

Então os meios de comunicação se aproveitam de nossa fragilidade e nos aprisionam, nos manipulam e nos transformam em massa; nos modelam e nos moldam em consumidores de qualquer tipo de produto que esteja à venda, pode ser um político, pode ser um desodorante, pode ser um comportamento. Para que um anunciante fique satisfeito, a mídia sensacionalista derrama sangue, vulgariza, ritualiza, apela, mascara, engana, age de forma tendenciosa. Mas claro que tudo é nossa culpa, não somos tão inocentes ou vítimas da mídia assim, que culpa tem um meio de comunicação se queremos, inclusive, saber o desenrolar de uma novela bem antes de ir ao ar. Ou queremos os detalhes de um incêndio em uma casa em um bairro de uma cidade que nunca iremos conhecer; e, claro que não aceitamos apenas uma nota pobrezinha em uma notícia. O bom é uma entrevista com os donos da casa que perderam tudo. Ao menos uma lagrimazinha rolando. Melhor ainda quando têm imagens, vídeos do desespero da família durante o famigerado incidente. E compramos revistas, assinamos jornais, lemos blogs diversos na internet, lemos e-mails de amigos mais confiáveis, discutimos nas redes sociais, lemos as principais postagens, postamos as principais novidades midiáticas que garimpamos em algum cantinho de ciberespaço. Postamos fotos de homicídios, discutimos os casamentos das celebridades ou a crise no casamento desse ou daquele ator ou atriz. Não somos inocentes, somos cúmplices da mídia. E claro que a empresa de mídia que não nos der isso, não terá nossa atenção e será forçada a fechar as portas, pois os anunciantes irão embora. Somos assim, queremos mesmo falar e saber sobre tudo de supérfluo e mesquinho. Queremos o ridículo no lugar do artístico. Nossa curiosidade é gigantesca. Essa mesma curiosidade que fez a sociedade evoluir. Será que isso é a evolução?

 Outra pergunta que poderíamos fazer é: se a mídia oferecesse outro tipo de programação nós daríamos nossa tão seleta audiência? Provavelmente não e essa mídia iria à falência; o que está em jogo, não é um padrão ideal de qualidade da programação oferecida. O elemento que impulsiona toda ação midiática é simplesmente a curiosidade humana. Foi justamente a curiosidade que fez a filosofia surgir. Dizem que foram os primeiros viajantes, os aventureiros, os vendedores ambulantes que criaram a possibilidade de desenvolver o pensamento humano e evoluir as sociedades. Eles levavam e traziam notícias de coisas extraordinárias acontecendo no mundo todo. Traziam para nos vender as novidades criadas por diversas ciências novas. Fazia nossa curiosidade atiçar. Queríamos sempre mais. Hoje, ainda é assim. Só que a quantidade de informação cresceu exponencialmente e inversamente à nossa capacidade de decodificar tudo que nos é apresentado de segundo a segundo. Por isso, precisamos de alguém que nos surpreenda com as novidades do dia. A mídia age como reação a nosso desejo; mas para chamar nossa atenção é preciso vencer a concorrência. Assim, cria-se o sensacionalismo, que é uma forma de aumentar a importância de um assunto e tratá-lo de maneira insistente a ponto de fazer com que pensemos que estamos diante de um evento grandioso. Assim, transformamos um assassino em centro de atenções, um ser anônimo que esteja confinado em uma casa por umas semanas como um herói da nação.

A luta entre as mídias para ter credibilidade; a sede por ibopes, por audiência, por acessos, faz com a qualidade do que é produzido seja feito cada vez mais de maneira superficial. Não importa a relevância a informação. Não, o que é interessante é saber que um grande número de pessoas acompanharam a publicação. Pode ser um gato em uma árvore, desde que possa ser transmitido em tempo real o fascinante resgate promovido por um grupo de bombeiros; claro que pode ser também um psicopata louco que prendeu a namorada em um quarto. Melhor ainda se conseguir uma gravação de imagens exclusivas do meliante na janela com uma arma apontada na cabeça da garota.

O mais irônico é que esse tipo de notícia grosseira tem audiência. A mídia sabe que fomos adestrados, por nossa sede por fofoca, a darmos atenção desnecessária a esse tipo de divulgação que não traz nada de positivo para a vida em sociedade. Para piorar, damos atenção até para coisas que deveriam, no mínimo, serem divulgadas com muito cuidado. Por exemplo, não há nada de mais ridículo do que um documentário a respeito de um assassino que entra em uma escola atirando e matando crianças indefesas. E, assistimos, lemos, ouvimos, divulgamos, e repetimos, damos cobertura total. Através da mídia, trazemos à tona e ruminamos mil vezes a dor das famílias das vítimas. Com essa iniciativa, damos possibilidade para que novos psicopatas busquem seus minutos de fama nos noticiários. Uma pena a mídia não perceber que acima de ibopes e da audiência a qualquer custo, está o frágil e curioso cidadão, que como já afirmamos, muitas vezes tem como único lazer, depois de um dia exaustivo de trabalho, a televisão, o rádio, um jornal, uma revista, ou navegar na internet. Acima de tudo, o que está em questão é mais que atrair anunciantes; está o equilíbrio dos valores milenares que deveríamos preservar na sociedade. Esquecemos que nosso papel, enquanto profissionais da mídia, seria, primeiramente, saber separar o que são e o que não são informações irrelevantes. Uma pequena nota sobre um crime tudo bem, mas explorar esse fato por uma semana, um mês; isso já é uma agressão. Um lamentável e brutal engano cometido em nome da mera audiência. Realmente uma pena que a mídia não tenha consciência de que seu poder também traz certa responsabilidade na construção de uma sociedade mais consciente; bem informada, sim, porém nunca deixando de lado as verdadeiras e necessárias informações em nome de trivialidades que apenas afastam o cidadão dos verdadeiros e reais problemas da sociedade que se diz moderna.

* Formado em Letras pela Universidade de Brasília, Cláudio Bertode é Poeta, Cronista e Educador na Rede Pública e Privada do Estado de Goiás.

Claudio Bertode

Formado em Letras pela Universidade de Brasília, Cláudio Bertode é Poeta, Cronista e Educador na Rede Pública e Privada do Estado de Goiás.