Power Point: a obra-prima do capeta

Não sei quando comecei a detestar power point. Pode ter sido quando todo mundo que não tinha nada útil para fazer começaram a passar e-mails com as ditas apresentações (naquela época não tinha o facebook para postar todo tipo de coisa sem noção) e um dia, então, eu abri a caixinha do meu correio eletrônico e lá estavam; tinham trocentas mensagens. Trocentas mesmo, não é erro gramatical não. É que eu acho esse negócio de power point um troço; e um troço muito chato mesmo. Eu detesto qualquer ensinamento que é passado ali, pode ser sobre uma vida feliz, sobre como é bom ser humilde, como devo compartilhar sorrisos, detesto quando devo me lembrar que deus me fez para brilhar, odeio quando vêm os quadradinhos com fotos de criancinhas sorride:ntes com texto em letras azuis reluzentes dizendo que devo viver um dia de cada vez. Acho bobo quando citam os dez passos para mudar de atitude. Acho desaforo quando pegam as fábulas da minha infância e abarrotam um arquivo e dizem que estão fazendo reflexão. Irrito-me toda vez alguém me aconselha a ver um vídeo e diz que é lindo e que chorou muito. É, tem mais essa, vocês já devem ter notado que os powerpointesmaníacos chamam essa pataquada de vídeo, de filme, etc. Chega ser uma ofensa ao conceito de vídeo e de filme. Engraçado é que esses Pseudo-filmes são sempre (eu disse sempre) regados com a mesma musiquinha chata e melosa que faz parte de todas as apresentações de power point. Mesmo que finjam que é outra melodia, e tal, mas não adianta, eu sei que é a mesma música, com a mesma voz de E.T. cantando lá bem no fundo… como dentro de uma taboca. Como se fosse a mesma noiva com outro penteado. Por falar em penteado de noivas, não se assustem se daqui uns dias até nos casamentos começarem a passar os malditos power points.  Logo vão se cansar do “lá-vem-a-noiva” e começarão com “lá-vem-slides” e tome frasinha bonitinha e sabedoria e vozinha de E.T. dentro da taboca.

Muita gente deve estar dizendo agora, que até é fofo ir no encontro pedagógico ou num programa de formação continuada e se deliciar com belas mensagens musicadas no win xp pirata.  Um dia aconteceu comigo, o bestão aqui foi num desses encontros pedagógicos, eu confesso, já fui em encontro pedagógico. Têm outras coisas das quais também me envergonho na vida, mas claro que esse dia foi o pior de todos. Ao chegar, logo percebi que aquela manhã estava prometendo ser daquelas regadas a muita mensagem bíblica e dinâmica de grupo com balõezinhos e tudo. A mocinha que podia ser minha filha chegou e disse que era fodona mandada pela Secretaria de Educação de Goiás para abrir novos horizontes na mente desse velho professor de Literatura.

Eu já não gostei da sujeitinha quando ela passou um vídeo da galinha pintadinha  e mandou que era pra eu sentar no chão e reproduzir fielmente o que estava acontecendo, era o vídeo dos escravos de Jó que jogavam caxangá. Eu entortei minhas costas e quase desloquei o joelho esquerdo quando tentei levantar. Aí ela disse que era a hora de ler/ver uma mensagem; quando eu comecei a ficar feliz por ela não conseguir abrir o arquivo, um nerd fila-da-puta, atrás de mim, bajulador e traíra, foi e ensinou como mudar a extensão do documento para ppt que daria certo. Bom, deu mesmo certo… 8 minutos depois, alguém me acorda pra avisar que era pra todo mundo ir para o meio da sala e pegar os balões que caiam aos montes do teto. De onde vieram aqueles balões? Eu com as costas ainda doendo do jogo de caxangá da galinha pintadinha nem cheguei perto de pegar um balão.  O pior foi que ao final a mocinha disse que deveríamos bater palmas brilhantes… já ouviram a expressão palmas brilhantes? Bem, é uma mistura de uma coisa que não sei explicar, só sei que é algo que se deve fazer estalando os dedinhos e não com as palmas das mãos como uma pessoa normal faria.

Agora me recordo, acho que foi naquele dia que passei a odiar power point. Claro que tive muitas outras (des)experiências com a maldita invenção. Até vou me permitir citar uma coisa que minha finada vozinha contava. Ela sempre dizia que as coisas ruins eram inventadas pelo capeta, por inveja de Deus. Por exemplo, ela dizia que Deus inventou as abelhas para fazerem o delicioso mel; aí o capeta invejoso foi tentar imitar e acabou inventando o marimbondo que não serve pra muita coisa; a não ser fazer casinhas na antena parabólica e atrapalhar o sinal da tevê. Deus inspirou o homem para inventar a informática e todas as maravilhas do mundo digital; e claro que o caramunhão invejoso foi lá e inspirou o retardado que inventou o power point…só para fazer o mal.

Claudio Bertode

Formado em Letras pela Universidade de Brasília, Cláudio Bertode é Poeta, Cronista e Educador na Rede Pública e Privada do Estado de Goiás.