O retrato da alfabetização no Brasil da aprovação automática

Apenas 8% dos brasileiros não apresentam problemas com leitura, escrita e raciocínio matemático. Ao me deparar com a matéria, que divulgava esse relatório do Inaf (Índice de Analfabetismo Funcional) do Instituto Paulo Montenegro em parceria com a ONG Ação Educativa de um estudo feito em 2015 (Acesse o Inaf 2015 aqui), confesso que para quem escreve é algo um pouco assustador. Quem irá ler o que escrevo? Para que escrever se a quantidade de pessoas aptas a interpretar as ideias veiculadas nos escritos é mínima. Como pode um país com 92% de pessoas com problemas de alfabetização?

Segundo o mesmo estudo em questão, quase 25% dos brasileiros em situação de trabalho, são analfabetos funcionais, somemos a esse número os quase 5% de analfabetos totais, ficamos com um número assustador de 30% de pessoas que não conseguem nem ler enunciados simples, não conseguem fazer cálculos simples, nem entender por exemplo a porcentagem de uma promoção em uma loja, ou ler um título de um anúncio de uma promoção. A esse número, acrescentamos 62% de pessoas com alfabetização rudimentar, elementar e intermediário e teremos o número realmente alarmante de 92% de brasileiros com problemas de letramento.

E o pior, um anúncio, seja em cartaz, ou veiculado na televisão é feito por uma pessoa capciosa e profissional em criar armadilhas lógicas. Agora imagina esses cidadãos, que têm idade entre 15 e 64 anos, sendo pulverizados o tempo todo com informações que eles não estão aptos a discutir ou a entender. Participando de períodos eleitorais, cujo espetáculo fica por conta dos grandes marqueteiros, mestres das enganações. Como acreditar que seria possível escolher democraticamente um bom governante para nosso país com quase um terço dos possíveis eleitores sem condições de analisar propostas, de entender as informações que são debatidas durante o pleito eleitoral?

Citamos e focamos nossos argumentos nos analfabetos totais e funcionais, que é o pior quadro, mas ainda temos 62% de brasileiros que não estão em boa situação. Esses também apresentam algum problema de alfabetização. Não conseguem entender esse, por exemplo, o que estou defendendo nesse artigo. Vão conseguir entender apenas as ideias simples como o título, algumas frases mais simples, mas o de complexo que estou apresentando nessa provocação, não conseguirão atingir. Ou seja, impossível resolvermos o problema de nossa democracia, sem antes, investirmos de verdade em educação.

Nesse sentido, o pior problema é termos de enfrentar os grupos políticos e econômicos poderosos que usufruem desse marasmo de analfabetismo, esses grupos, siglas, empresas, pessoas poderosas conseguem se manter no poder aplicando meios de manipulação de informação diversos: segundo Noam Chomsky,  em seu estudo sobre as vastas maneiras de manipulação midiática, muitos plantam notícias falsas, boatos virtuais, falsos problemas ou fingir que um problema é insolúvel, só para depois trazer a público uma falsa solução ou uma solução paliativa para dar a si mesmo ares de herói.

O pior é que os chamados analfabetos, que vão de rudimentares, passando por funcionais até chegar nos níveis totais, estão tantos nos grupos de pessoas que nunca tiveram qualquer acesso a letramento àqueles que possuem curso superior e mesmo assim é enquadrado como analfabeto funcional, ou mesmo tendo títulos de pós-graduações não saiu de níveis rudimentares e parciais de alfabetização.  E fica ainda mais alarmante quando o relatório apresentado mostra que essas pessoas estão inseridas em altos postos da sociedade, seja no setor privado ou setor público. Eles mesmos por suas condições de poder e por não entenderem de maneira profunda o que estamos debatendo, tornam-se entraves no combate do problema.

Diante dessa triste realidade, só com a união de todos os insatisfeitos e liderança de pessoas qualificadas, poderíamos pressionar o poder público a fazer os investimentos corretos e necessários na educação básica. Para que a partir de algumas gerações possamos ver esse grotesco quadro minimizado e podermos sonhar com uma sociedade mais crítica e verdadeiramente cidadã.

Claudio Bertode

Formado em Letras pela Universidade de Brasília, Cláudio Bertode é Poeta, Cronista e Educador na Rede Pública e Privada do Estado de Goiás.