O professor e o complexo de vira lata

 

Sou educador e confesso que não concordo com uma lógica que vejo entranhada a minha volta. Uma lógica que afirma que professor é coitadinho. Que é a grande vítima de um sistema que dá muito menos do que esse incrível profissional, esse grande herói da sociedade merece.

Na verdade, é mais que uma simples lógica, trata-se de uma figura quase folclórica que vejo aqui e ali em rodas que discutem educação, em palestras, em fóruns, em debates, em postagens das redes sociais, em encontros pedagógicos e até em matérias da fracassada velha mídia.

O vira lata é o ser que se olha no espelho e se sente coitadinho em relação ao mundo a sua volta. Esse olhar que afirma que todos a sua volta têm “pedigree”, esse olhar derrotista sobre si mesmo.

Sim, há uma força maior do que as condições adversas de uma situação, que se chama falta de autovalorização como ser humano. Esperar sempre que os outros digam que você é importante, uma necessidade doentia de que os outros expressem o quanto você é o pilar de tudo que se inicia em termos de conhecimento.

Nessa lógica ainda entra outra atitude vergonhosa, que é dizer que tudo de errado é culpa do professor. Ideb em baixa, analfabetismo funcional em alta, falta de valores familiares, violência infanto juvenil, falta de leitura, falta de hábito de estudos por parte dos alunos. Tudo isso é visto como culpa do professor que não é capaz de ser tão criativo a ponto de fazer com que os alunos sejam estimulados e desafiados de forma adequada. Os discursos de diretores, coordenadores, e secretarias de educação sempre começam: “Esse projeto só tem como dar certo, se todos os professores vestirem a camisa”, “A única maneira de dar certo é se todos os professores lutarem com unhas e dentes por esse projeto”, “Só o professor, com estratégias diferenciadas pode fazer a diferença”. Sempre a ideia de que qualquer erro, qualquer passo errado por parte de um educador, já fará com que todo o esforço grandioso do governo e da direção da escola sejam desperdiçados. Até aí tudo bem, já escrevi sobre os chefes medíocres que não assumem a parcela de culpa que lhes cabem. O que, por outro lado, não é correto é o próprio professor se sentir culpado por um fracasso que é de um sistema como um todo. Lutar para melhorar sempre é muito digno e é o esperado de qualquer profissional. Agora se punir, sentir-se derrotado e envergonhado perante o sistema e assumir toda e qualquer culpa? Sim, isso é o viralatismo.

O primeiro a se valorizar é a própria pessoa, o próprio profissional. Ninguém valoriza e respeita quem não se respeita. Um patrão não valoriza um profissional que não exija e que no fundo não acredite que possui um valor. Não espere que os outros dediquem respeito e valorização a alguém que não se considera digno de receber esse respeito. Parar de reclamar e ir à luta é o melhor caminho.

Por isso, meus amigos, a mensagem de hoje é, não se comportem mais como coitados. Não são coitadinhos, não são vira latas perante a sociedade. Ah, não são profissionais melhores do que outros também, são importantes na sociedade, sim, mas são como quaisquer outros, nem melhores, nem piores. Lutar por melhores condições de trabalho é um dever, tudo deve evoluir, todos devem lutar para criar um melhor ambiente, uma melhor estrutura de carreira, assim devem e já fazem todas as categorias profissionais do Brasil. Agora, ficar esperando que os outros façam isso por você por reconhecer que é o profissional mais digno de toda a sociedade, esperar o prefeito, o governo, a presidente, esperar que a sociedade caia de joelhos perante seu autossacrifício profissional, chega a ser patético. Aí já é se por portar e se comportar como vítima, um verdadeiro vira lata social ou, pior, é um desejo muito megalomaníaco e presunçoso. Nada chega de mão beijada, tudo depende de acreditar em si mesmo, e mais, acreditar e ir à luta e se dar o respeito que tanto espera da sociedade.

Claudio Bertode

Formado em Letras pela Universidade de Brasília, Cláudio Bertode é Poeta, Cronista e Educador na Rede Pública e Privada do Estado de Goiás.