O antiquário do Sr. Macedo

Seu Macedo já inicia o ritual, mais uma vez vai comprar este canivete, depois, quando eu conseguir dinheiro, venho aqui e compro de volta.

 

Este Sr. de óculos fundo-de-garrafa, magrinho, longos dedos e expressão séria é o Sr.  Macedo. Tudo neste antiquário, todas essas tralhas, coisas e mais coisas, algumas esquisitas, curiosas, todo esse universo de apetrechos, é dele.

 

Sim, ele está abrindo a caixa registradora, as notas de vinte, de dez, os montinhos de cédulas…

 

___Olha menino, dou quinze. Sei lá se esse canivete não é roubado…

 

Essas foram as palavras, que seu Macedo proferiu, da primeira vez que entrei por aquela porta.

 

Entrei com vergonha, com ressentimento de deixar o canivete, única herança do meu avô, em meio a esse milhão de coisas velhas desse antiquário. Não tive coragem de olhar seu Macedo nos olhos. Sua voz era tinida de um som muito empoeirado.

 

__Olha menino, tá me ouvindo? Dou quinze!

 

Com muita dificuldade murmurei que quinze era muito pouco. Sussurrei, que o canivete era folheado de ouro. Que meu avô tinha trazido da Itália. Tinha tirado de um morto de guerra, na batalha de Monte Castelo. Mas seu Macedo respondeu que não trabalhava com o valor sentimental das coisas. Pediu que eu olhasse em volta. Por exemplo, o guizo de cristais tinha sido da baronesa não-sei-das-quantas, o valor sentimental dele era enorme. Quase quatrocentos anos de sentimentalismo tiniam quando o vento espancava uma pedrinha na outra.

 

___Essa navalha, olha, menino!

 

A navalha de prata, que o velho Macedo tirou de uma gaveta, tinha feito a barba de Dom Pedro II, veio pela santa providência das muitas migrações de seu Macedo.

E o Velho me mostrou os punhais que pertenceram a Lampião, um par de botas do bandeirante Anhanguera, um manuscrito dum tal de Padre Vieira.

 

__Menino ignorante, não conhece o padre Vieira?

 

Não, eu não conhecia, também não conhecia o óculo de Olavo Bilac, nem o chicote que chibatou Zumbi.

 

Se fosse somar o valor sentimental de todas as antiguidades do Sr. Macedo, ele seria o homem mais rico do país.

 

Seu Macedo daria dezessete pelo canivete e eu ainda poderia pegar um pastel com o Zé, lá na vendinha, que ele pagaria.  Isso porque me achava um bom menino.

 

 

 

Anos mais tarde eu entrei no antiquário para comprar o canivete de volta… Hoje, preciso novamente, vender este objeto que por si e por tudo se fez mais importante para mim do que deveria. Já perdi as contas de quantas vezes.

 

 

Esse canivete tem uma frase em uma língua estranha gravada no cabo. Meu avô mesmo gravou? Quem gravou então? Meu avô me entregou dizendo que era sua maior herança da segunda guerra…

 

O velho finado-meu-avô-tentente-coronel-Aníbal-ex-pracinha-de-Vargas foi condecorado pelo próprio presidente Vargas. Uma medalha, banhada, de um pouco mais de um grama de ouro, em troca da perna do meu avô. Essa foi a única herança que meu querido avô conseguiu me deixar…

 

Desta vez será um processo bem rápido. Eu já conheço os procedimentos:

Enquanto o velho Macedo estará abrindo a caixa registradora, eu estarei apreciando aquele universo de coisas empoeiradas. Vou passar os dedos pelo centenário guizo de prata, deixá-lo evocar histórias coloniais e anedotas dos tempos do império. Vou folhear o velho manuscrito de Vieira e tentar decifrar os rabiscos no papel amarelo e carcomido pelo tempo, quem sabe beber um pouco da sabedoria do sábio e genial padre dos tempos conturbados e paradoxais da era barroca.

 

Então o velho Macedo pegará o canivete de minhas mãos e abrirá uma caixinha que fica na gaveta. Colocará o canivete na caixinha e, com muito cuidado, suas idosas mãos fechará a tampa…

 

Ele e eu sabemos que voltarei outras vezes para repetir esse ritual e passar horas por aqui conversando com Seu Macedo. Aprendendo e apreendendo todo esse universo, apreciando a convivência desse homem tão sábio e que viveu aventuras extraordinárias em busca de objetos para enriquecer esse cenário magistral. Meu avô Anibal não sabia, mas quando me entregou esse canivete, também me concedeu a chance de conhecer alguém como seu Macedo e partilhar um pouco de seu universo. Sinto, mesmo que ele, seu Macedo, embora não saiba e nunca venha a saber, mas eu o acolhi como meu outro avô.

 

O velho e bom Sr. Macedo, com sua voz museológica, vai pedir duzentos ou quinhentos pelo canivete e eu sem reclamar vou pagá-lo e com satisfação infantil vou guardá-lo no bolso.

Quando virar as costas para seu Macedo, ele dirá: “Até à próxima!” e eu responderei: “Até!”, pois nós dois sabemos muito bem que eu voltarei muitas outras vezes, voltarei para revender este canivete e, assim, sempre terei um motivo para voltar aqui. Na verdade, não é mais só questão de dinheiro, sinto falta de vir aqui, às vezes, preciso, ao menos de tempos em tempos regressar, mergulhar por algum tempinho nesse ambiente em que as regras são diferentes em relação ao tempo/espaço.

Entrei nesse antiquário, aos quinze anos, para vender uma simples lembrança, que nem pertencia a mim, e sim, ao meu avô Anibal, hoje sinto como se cada objeto que faz parte desse universo fosse um fragmento de um passado que consigo rememorar e sentir através da história que cada um desses apetrechos traz quando são contemplados.

 

Hoje, deixo aqui nas mãos de Seu Macedo, que mesmo sem saber foi alguém muito importante em todas as decisões que tomei na vida, desde meus quinze anos até hoje. Na primeira vez que pisei aqui, eu vim me desfazer da única lembrança de meu avô herói, que quando morreu, única coisa que deixou de sua vida de herói pracinha da Segunda Guerra foi este canivete, mas neste mesmo lugar, eu encontrei muito do que sou hoje. E cada objeto daqui, agora, mesmo que por vias indiretas fazem parte de minhas lembranças e de minha consciência enquanto ser humano.

 

Dou uma última olhada, encho meus pulmões de todo esse cheiro que esse lugar emana e caminho calmamente para a porta, olho para trás e me despeço.

 

 

___Até, seu Macedo.

 

___Até a próxima, meu filho.

Claudio Bertode

Formado em Letras pela Universidade de Brasília, Cláudio Bertode é Poeta, Cronista e Educador na Rede Pública e Privada do Estado de Goiás.