Sábado, 25 de maio de 2019
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Editorial

11/04/2019 às 20h55

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Cláudio Bertode

JARAGUA / GO

Brasil: Um país em crise de identidade
Mesmo que o jeito brasileiro de debater política, faça-nos parecer uma horda de bárbaros...
Brasil: Um país em crise de identidade

 


Mesmo que o jeito brasileiro de debater política, faça-nos parecer uma horda de bárbaros nos ofendendo e nos machucando verbalmente, e às vezes, até fisicamente, ainda assim surge algo que parece ser o primeiro passo em direção de um aprofundamento do que seria ser de esquerda e o que seria ser de direita em terras tupiniquins. Claro que se trata de um passo meio que cambaleante, como quem dança pisando ao pé da dama. Tanto pela direita quanto pela esquerda, quando tiramos o liberalismo da equação, o que sobra, é sem noção, é confuso, é o verdadeiro samba do crioulo doido, inclusive pelo fato de nossa percepção do estar mais à direita ou mais à esquerda ideologicamente aqui ganha realces de confusão, sendo ora ou outra quase que um paradoxo.


Nota-se, esse pandemônio ideológico, principalmente por parte dos mais jovens, e no que se diz respeito ao ser liberal. A filosofia liberal, assim como já aconteceu em tempos passados com o marxismo, traz uma sedução para o mais jovem, o liberalismo traz um poder de representação dos anseios do tempo contemporâneo, uma ideologia que se apresenta bonita, uma vez que defende todas as liberdades individuais, o pleno livre arbítrio, as liberdades máximas do cidadão, no entanto quando defendida por um brasileiro que se afirma de direita, ganha uma nuance interessante, uma vez que esse mesmo jovem se diz liberal e conservador. Quando um jovem de esquerda defende todas as liberdades humanas, suas bandeiras como legalizações, abortos, sexualidades, oportunidades iguais para pobres, eutanásias, tudo isso, fica confuso, pois esse mesmo jovem de esquerda que tem o liberalismo nas veias, quer um estado forte e centralizador aos moldes das filosofias antigas e marxistas.


Ao analisarmos nosso brasileiro de direita, que se diz liberal e conservador é possível perceber uma pequena contradição em relação ao que possam vir a ser as tais liberdades individuais, a nova direita brasileira, acredita que a liberdade individual deva ser considerada apenas quando se trata de liberdade individual em termos de economia, nesse caso o termo liberal é bem aplicado, já que defende que o estado deverá ser mínimo, e mínima também deverá ser a interferência do estado nas prestações de serviços à população e enquanto controle do mercado.


A controvérsia e a confusão começa quando a direita que se diz liberal,  ao mesmo tempo em que defendem uma não interferência do Estado nos interesses do indivíduo, por outro lado vem e despreza todas as outras liberdades do cidadão e já muda o discurso e agora quer um estado interventor, uma vez que o estado deve zelar por valores morais que esses seres consideram como da família, como sendo valores da religião, valores do bom comportamento da mulher, regras que boas mulheres deveriam usar para não se misturarem com as mulheres de má conduta, mal vestidas, mal comportadas e que merecem tudo de ruim da sociedade como estupros, assédios, repúdios, etc.


Na mesma linha, pode-se também citar, a luta dos supostos brasileiros de direita e liberais conservadores, por exemplo, luta por valores do bom comportamento, inclusive o anseio por uma lei, por um rol de punições, por um aparato que seria um manual de posturas corretas para um professor perante seus alunos. Nesse quesito, muitos profissionais, muitas pessoas perdem o seu direito pleno enquanto indivíduo, assim a ideologia que começa como liberalista, perde completamente seu contorno de luta pelas liberdades individuais e direitos iguais para todos. O estado vira um ente intervencionista e moralista que é capaz de punir, desmoralizar, desmotivar, denegrir a reputação, no caso, a escola sem partido que seria uma resposta aos professores doutrinadores, que são minoria, e esse, sendo doutrinadores de direita ou de esquerda, ou fanáticos religiosos da sala de aula, devem realmente ser combatidos, o problema é que o discurso punitivo do escola sem partido ganha um contorno que generaliza, denigre a imagem, não valoriza o trabalho dos bons professores desse país.


Infelizmente, para o Estado que enquanto Liberal, deveria prezar pelas liberdades individuais plenas e pelo livre exercícios da sexualidade, de pensamento, liberdade de expressão, liberdade religiosa, vira um lugar de pequenas bancadas que se dizem liberais apenas por ser a filosofia da moda, bancadas que não lutam nem pelo individual nem pelo coletivo, apenas cumprem o papel de fiscalizar os quem por acaso saem da linha moral estabelecida (por eles mesmos), dessa linha surgem as bancadas  parlamentares de defesas morais como as evangélicas, bancadas defensoras de fábricas de armas de fogo, a chamada bancada da bala, bancadas de parlamentares que praticam lóbi dentro das Câmaras e dentro do Senado e ainda recebem auxílios infinitos com dinheiro público. Assim, para os grupos, ditos liberais de direita,  o estado é mínimo e liberal apenas quando se trata de direitos trabalhistas e livre comércio nos mercados de capitais, quando entra nas liberdades realmente individuais, eles defendem um estado que deverá censurar, monitorar e controlar a vida do indivíduo.


Ao analisar a esquerda brasileira, presencia-se a mesma crise de identidade no país, ela também é liberal e não sabe, ou é liberal e não assume, pois isso seria um palavrão nos clubinhos da esquerdalha. A nova esquerda brasileira, esbraveja contra o liberalismo, mas defende a bandeira das liberdades individuais nos palanques. Claro que é contraditório, pois a esquerda quer todas as liberdades individuais, quer desenvolvimento social que permita liberdade de oportunidades para todos, quer voz para todos os grupos de minorias, ou seja, é o velho e bom Liberalismo em seu mais enfático contorno, inclusive bandeiras, às vezes, muito pesadas para se defender em uma sociedade como a brasileira. Bandeiras como debater o aborto, debater liberação da maconha, bandeira como união homoafetiva, valorização de salário mínimo, aumento de direitos trabalhistas, aumento de poder de compra para a população mais pobre. Tudo isso é bandeira liberal, o liberalismo em sua essência prega tudo isso. A sociedade plena de liberdades e oportunidades iguais, regras claras para a harmonia e a livre concorrência.


Claro que a esquerda brasileira, jamais daria o braço a torcer de que luta por muitas bandeiras liberais. Daí, entra em contradição, pois ao mesmo tempo que defende todas as bandeiras do liberalismo social, vem e defende o socialismo, o comunismo, defendem intervencionismo estatal, defendem um estado forte e paternalista. Se por um lado defendem o afrouxamento da moral e dos costumes, por outro defendem o estado centralizador e forte. Assim, o que começa com um discurso de liberdades, torna-se um pesadelo a quem que quer ser empresário no país, um pesadelo a quem quer empreender, um pesadelo para quem sonha com um país com menos corrupção.


 Sabe-se que o modelo de estado forte e dono de muitos serviços à população e de arrocho fiscal, é o modelo preferido dos empresários corruptos, sonegadores, e todo um grupo que aprendeu desde cedo o jeitinho brasileiro de lidar com as brechas da máquina estatal, seja comprando políticos, seja financiando caixa 2, superfaturando obras, fraudando licitações, mensalões, lava-jatos, até dinheiro de merenda escolar entra na conta da corrupção.


E quando se chega ao quesito corrupção, não temos brigas entre a esquerda liberal camuflada e a direita liberal confusa. Os dois grupos, tanto direita como esquerda, sabem muito bem se beneficiar das enxurradas de dinheiro público que vão do ralo da corrupção para as contas de laranjas de líderes partidários. Hoje, não é mais possível afirmar que algum partido brasileiro não tenha direta ou indiretamente participado de atos criminosos contra o patrimônio público.


Em resumo, o que temos em nosso país é o Liberalismo em construção, querendo entrar tanto pela direita, quanto pela esquerda. Seja prometendo aos brasileiros de direita que podem ter o tão sonhado estado mínimo e ao mesmo tempo, preservar o conservadorismo de valores, seja prometendo aos de esquerda que podem ter relaxamento de todas as liberdades individuais e das minorias, sem abrir mão de um estado forte e paternalista. Assim, vivemos dias de confusão de identidade ideológica. Nem o modelo que a direita apresenta é satisfatório, nem o modelo que a esquerda afirma é compensatório.


Espera-se que em curto prazo, o Brasil possa travar o verdadeiro diálogo democrático, e que desse diálogo possamos chegar em um modelo de país, que satisfaça, a maioria das pessoas de bem dessa nação. Para esses é que dizemos que não baixem suas cabeças, logo a nação tupiniquim terá a sua outra abolição, a sua outra independência, a sua outra proclamação de uma república verdadeiramente plena em liberdades individuais e cidadania.

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