Segunda, 15 de outubro de 2018
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Polícia

06/10/2018 às 14h28 - atualizada em 07/10/2018 às 13h25

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Cláudio Bertode

JARAGUA / GO

A eleição que despertou o pior dos brasileiros
Vai demorar muito tempo para consertarmos muito do que vandalizamos em termos de humanidade
A eleição que despertou o pior dos brasileiros

 


Uma eleição que irá entrar para a história, no entanto, não por ter revolucionado o país, e sim, por termos mostrado nosso lado mais bruto e incivilizado durante todo o processo. Uma eleição que dividiu o país não por propostas, a maioria nem sabe quais as propostas de seus candidatos, apenas vota no candidato A para que o candidato B não possa subir ao poder. É uma realidade tão peculiar que estamos votando não é a favor das ideias de nosso favorito, na verdade, estamos votando nem é contra as ideias do outro partido, estamos votando em uma estratégia. Os estrategistas de campanha, os tais marqueteiros, disseminaram e fizeram crer que estamos lutando contra um mal. Essa ideia de que o outro candidato é o mal é o que fez despertar tudo de ruim e maligno dentro de nós, assim raciocinamos que o mal deve ser combatido com um mal ainda maior. Assimilamos nesse jogo, que até o outro ser humano que votar contra meu candidato é inferior, ele também é defensor do mal encarnado do qual temos de lavar e expiar o país. Vai demorar muito tempo para catarmos os cacos de tudo que quebramos e vandalizamos em termos de contatos humanos durante esses dias de eleição.


Como ingredientes temos um país em crise, inclusive de identidade enquanto cidadão, enquanto ao que seja liberdade de expressão, problemas econômicos, desemprego, cargas e mais cargas de tributos, uma nação em que os políticos estão cada vez mais desacreditados, misture a tudo isso eleições disputadas por empresas de marketing especializadas em simular e estimular as massas a respeito do que sonhar, do que ter esperança, do que odiar e como expressar esse ódio. E nós acreditamos, não é que não acreditemos, temos fé e confiança inocente de que estamos mesmo canalizando nossa indignação em prol de um mundo melhor, já para os coordenadores de campanha e para a mídia que dissemina e contamina o real com suas peripécias, é apenas um jogo, até agem de forma lúdica diante do espetáculo, o qual cegamente levamos a sério.


São estratégias potentes, especializadas, milimetricamente criadas, a elas, agrega-se a sutileza com que são plantadas nos meios sociais, daí a pouco as pessoas estão debatendo, defendendo, usando como argumento nos bate-papos. Basta insinuar, melhor se apenas insinuar, deixar o cidadão criar o resto do raciocínio, e pronto, as marionetes começam a dançar, a pessoas passam a acreditar que aquele ódio, aquela raiva, aquela indignação são delas. E começa a sonhar que seu candidato é o herói que vem a cavalo branco para salvar a nação, cada eleitor acredita que seu candidato é esse príncipe salvador. Muitos de nós não conseguem compreender por que o outro defende tanto tal nome, se vemos claramente que ele está sendo ingênuo, cego, mas temos dificuldades para perceber que nós estamos agindo da mesma forma ingênua que age nosso vizinho, nosso irmão, nosso colega de trabalho, nosso familiar. No Brasil, sempre essa tática foi bem-sucedida, sempre usaram como ferramenta política, alimentar e aumentar nossa ansiedade por um salvador, em todas as campanhas estamos à espera do grande pai da nação, do grande líder que irá colocar ordem na casa. Foi assim, na figura de Vargas, JK, os militares (em boa parte do tempo), Collor, Lula e não seria prudente aos mestres do marketing mudar a estratégia agora. É a velha máxima que vale também para manipular as massas humanas em campanhas políticas: em time que está ganhando, não se mexe.


A mídia também foi grande estrela nesse enredo, seja a grande mídia com seu poder de recursos e técnicas, poder de alcance nos lugares mais remotos do país, seja a mídia nanica, sem compromisso, no entanto oportunista, espalhando supostas “notícias” via watsapp, via redes sociais diversas, desinformando e causando insegurança na população. Posto tudo isso, temos então nós, pobres mortais nos sentindo os justiceiros, os revolucionários, heróis fazendo um país melhor, quando na verdade, estamos agindo ora feito marionetes nas mãos desse jogo chamado política, ora agindo feito brutos em meio a grupos religiosos, grupos de família, grupos de empresas, com os vizinhos, no trânsito, no mercado, nas feiras, ofensa aos amigos, irmãos, filhos e pais.


O mais engraçado é que por trás desse turbilhão, os manipuladores (especialistas em marketing) riem de nós, riem de nossa inocência e da facilidade que é provocar nosso espírito ao bel prazer das belas estratégias, quase dignas de respeito. Pena que estamos falando de um país em que o analfabetismo funcional é alto, o número de analfabetos totais é alto, um país em que ainda somos reféns dos chamados canais de tevês abertas, um país em que a maioria compartilha uma suposta notícia e nem ao menos lê antes de repassar.


Assim, o que resta é esperar a eleição acabar. Que depois que tudo passar, depois dessa tempestade, as águas voltarem a calmaria do dia a dia, possamos ter coragem de pedir desculpas, coragem de refletir nossos excessos e admitir que fomos manipulados por um momento, levados pelo calor da esperança e nesse momento de euforia, machucamos, magoamos pessoas, ferimos, e muitos feriram literalmente, muitos agrediram, danificaram bens do outro, ofenderam uns aos outros. O mais triste é que no mundo dos candidatos, tudo não passou de um jogo, uma partida, jogadores profissionais com todo um aparato diante de um tabuleiro, depois das eleições vêm os acordos por apoio, vêm as alianças entre muitos dos partidos inimigos, vêm os cargos para cada aliado, e em nome de governabilidade, muitos candidatos que eram rivais, que se xingavam, trocavam supostas ofensas, passarão a aliados, sempre foi assim desde a era grega e romana, e não será diferente hoje. E nós eleitores? Sim, ficaremos com o orgulho ferido, o ranço, o gosto amargo na boca de ter dito palavras que não devíamos, de ter agido de forma que nenhum ser humano deveria agir e com a vergonha de ter sido só mais uma peça no jogo dos reis do marketing político e psicológico das disputas pelo voto do cidadão.


 

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