Segunda, 15 de outubro de 2018
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Literatura

29/09/2018 às 22h23 - atualizada em 29/09/2018 às 22h40

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Cláudio Bertode

JARAGUA / GO

O escritor e seus fantasmas
Não existe nada de glamoroso na vida de um ser que se dedica a viver em meio às palavras.
O escritor e seus fantasmas

 


 Por Cláudio Bertode*


I


Não existe nada de glamoroso na vida de um ser que se dedica a viver em meio às palavras. Não há escritório bonito, não escrevo tomando whisky, nem passo a vida em meio a festas regadas a devaneios sensuais, em meio a prazeres finos. O que tem aqui para criar essa arte é só um ou outro livro velho e empoeirado.


Esta sala a que chamo de biblioteca, parece mais um porão. Um depósito de coisas velhas, cheiro de mofo da infiltração das paredes, cheiro de excremento de rato que invadiram o forro do teto.


Uns e outros olham a obra pronta e, numa fração de segundos, até chegam a admirar esse artista de silêncio e solidão. Pobres, almas! Não conhecem nem de longe os bastidores.


Aqui sou obrigado a escrever ouvindo o choro da criança, que provavelmente a vizinha não cuida direito, muitas vezes me sinto impelido em ir ver o que está acontecendo. A criaturinha chora sem parar, grita, berra literalmente. Como me concentrar? Como escrever mais de duas linhas? Rasgo tudo que já produzi e começo tudo novamente. Nada. Nenhuma ideiazinha, e a criança continua chorando. Quando passa na rua algum vendedor ambulante, os cães latem desesperados, uivam desvairados.


II


Às vezes, penso que seja o que chamam de crise criativa, bloqueio, hiato artístico. Não sei. Talvez eu tenha esgotado toda minha capacidade intelectual mesmo e fico inventando desculpa para persistir na ideia de ainda tenho uma mensagem brilhante para passar para a humanidade. Pode ser ansiedade, sonho com um padrão que só existe em minha utopia. Deve ser isso. Talvez seja apenas ansiedade por ter criado um ideal inatingível.


Acredito, aliás, tenho certeza de que um artista não deve chegar ao topo da aclamação pública antes de estar preparado. Um jovem em seu primeiro trabalho já ser aclamado, vender muitos livros, ser respeitado pela crítica. Tudo isso estabelece um padrão perigoso, um paradigma insano. 


III


Longe de todo o glamour idealizado pelo leitor, longe dos palcos midiáticos, mantidos por figuras desbotadas de talento, fico aqui tentando alcançar o próprio limite de mim. Vou discretamente, sigo em meio a meu próprio paradoxo: evoluir e não mais ser capaz de suprir as expectativas de meus poucos leitores, criando uma reputação construída a partir de pequenos tijolos.


Seguir sem pressa, criando novos leitores para meus rabiscos? Aceitar que seja possível que meus leitores ainda nem nasceram ou que possam não existir nunca?


* Formado em Letras pela Universidade de Brasília, Cláudio Bertode é Poeta, Cronista e Educador na Rede Pública e Privada do Estado de Goiás.

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