Terça, 18 de dezembro de 2018
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Política

23/09/2018 às 14h04 - atualizada em 02/10/2018 às 21h53

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Cláudio Bertode

JARAGUA / GO

Eleições no interior, votos de protesto, votos em forasteiros e outras pegadinhas
E seu voto de de protesto vai para...
Eleições no interior, votos de protesto, votos em forasteiros e outras pegadinhas

                     Época de eleição é a melhor fase do ano, principalmente para pessoas como nós que não temos o poder possuir muitos bens, que não somos grandes investidores, não somos financiadores de campanha, não temos muitos imóveis, não temos empresas ricas. É um momento especial para nós, pobres e simples mortais, e claro, sem status social. É o tempo em que somos abraçados, visitados, ouvidos e vistos pelos mais populares da cidade. Até lembram nosso nome, elogiam nossos filhos, nos lembram o quanto somos importantes e o quanto nossa cidade nos deve por sermos quem somos. Isso tudo por que temos uma escolha a fazer. Nossa importância, muitas vezes, resume-se e termina ao digitarmos um número num teclado de uma urna e apertar o verde. Depois que a musiquinha acaba, saímos com a sensação que depositamos ali mais do que um voto, ali estão esperanças de um futuro melhor para nossa cidade, para nossos filhos. Ali estão as expectativas de melhores escolas, uma cidade mais segura, um hospital melhor, ruas menos esburacadas, às vezes, estamos protestando e digitamos um número aleatório para criar o famoso voto em branco, tanto valor acumulado em um único gesto. O problema é que embora nossos gestos sejam munidos de tanto valor agregado, esse precioso voto muitas das vezes está indo para alguém que nem sabe da nossa existência enquanto cidadão, e nossa cidade, nossa prefeitura, nossa comunidade, corre o risco de ficar 4 anos sem representação e sem as benesses dos orçamentos anuais do Governo.


               Parece brincadeira, no entanto, muitos de nós não fazemos nem ideia do nome do candidato que foi eleito com nosso voto na eleição passada. Segundo a empresa de pesquisa Ideia Big Data, 79% dos brasileiros não lembram em quem voltou, a revista exame até chamou de amnésia pós-pleito, quem quiser conferir a matéria da revista, ela pode ser lida aqui . Isso acontece por diversos motivos: pode ser por que nosso candidato agora está sendo processado, ou está preso, ou simplesmente é daqueles que aparecem apenas de 4 em 4 anos, ou ainda, podemos ter votado por que alguém pediu: um pastor, um professor, um político da cidade pediu, um patrão, um líder da comunidade, um compadre, são tantos motivos para votarmos em alguém desconhecido da nossa cidade. Não saber em quem votamos é complicado, como vamos cobrar algum serviço para nossa região? Cobrar de quem? Cobrar como se nem a pessoa que indicou o candidato tem contato com ele?


Ainda tem a pegadinha do quociente eleitoral, essa sim, é traiçoeira. Nós somos levados por candidatos da comunidade que nos empolgam, podem até ser boas pessoas, no entanto, boa parte das ocasiões, esses candidatos estão apenas fazendo base eleitoral para figurões (candidatos cabeça de chapa do partido, e muitas vezes candidatos da grande capital) e que precisam puxar votos do interior sem precisar fazer compromissos naquela comunidade. Por exemplo, para eleger um deputado estadual em Goiás, iríamos precisar de uns 107 mil votos, não leu errado isso mesmo, uma vez que temos 4,4 milhões de eleitores, quando se aplica a fórmula que é dividir esse número por 41 que são as vagas para deputado, teremos a quantidade de votos. Claro que esse patamar ainda não é o exato, visto que antes de aplicar a fórmula, teremos de descontar os votos nulos, os votos em branco, as abstenções, que esse ano deverão, provavelmente subir. Na melhor das hipóteses, cada vaga para deputado vai precisar de uns 70 mil votos, ou seja, impossível eleger um deputado apenas com os votos de uma cidade com apenas 32 mil votos e que boa parte ainda vota em branco, nulo, abstém-se de voltar, para um candidato aqui do interior atingir esse patamar, irá precisar ser um dos mais bem votados entre os companheiros de partido, de coligação, ou seja, ele disputa com os adversários e disputa com os companheiros, pois há a necessidade de somar por volta 25 mil votos com mais 45 mil de companheiros (claro que dependendo pode ser menos de 25mil ou poderá ser mais, o quociente eleitoral depende de vários fatores). Daí, é muito comum, pessoas da comunidade saírem como candidatas sabendo que não vão ganhar, que não têm chance alguma na eleição, apenas saem como candidatos para somar mais uns votos para a coligação (Alguns poderiam até receber, em forma de verbas de fundo partidário). E por isso, fica a pergunta: para quem está indo seu voto de protesto? Pode, inclusive, estar indo para o candidato contra o qual você está protestando. Seu voto nulo não influencia nada também, pois na conta só entram os votos válidos, sua abstenção apenas vai render uma burocracia, uma multa, e ainda, vai excluir sua pessoa de concursos e muitas coisas que envolvem direito de cidadão.


Desta forma, não resta outra conclusão, é melhor votarmos em alguém de nossa comunidade, no entanto, devemos escolher alguém que realmente tenha chance de ser um dos mais bem votados entre os da coligação desse nosso candidato. É preciso investigar quais são os outros nomes dessa coligação, para que caso a pessoa em quem votamos não vença, saibamos para quem está indo nosso voto. E também sabendo qual a coligação e quem são os candidatos da chapa, iremos ter uma base da votação de cada um deles, desta maneira poderemos saber mais ou menos quantos votos o candidato que apoiamos precisa, assim poderemos saber as reais chances de nosso representante. Feito isso, agora sim, podemos pedir votos para nosso candidato, e fechar nosso compromisso com ele. Lembrando que não podemos ficar sem representante. Temos por volta de 246 municípios em Goiás, e se não elegermos alguém daqui, nossa cidadezinha passará 4 anos sem benefícios, os eleitos estarão tão comprometidos com seus municípios de origem, comprometidos em aumentar suas visibilidades na capital, nas maiores cidades do estado que não terão tempo de olhar para tantas pequenas cidades do interior, anônimas, abandonadas, sem estrutura, e se não tivermos nosso próprio representante, ficaremos, infelizmente, sem ninguém por nós e vai sobrar só a sensação boa de alguns tapinhas nas costas e apertos de mão nas épocas de campanha e magia vai terminar assim que apertar o verde na urna eletrônica e tocar a musiquinha.

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