Mulheres não merecem ser estupradas, a pesquisa que a Veja não entendeu

Por Cláudio Bertode*

Encerrando o mês da mulher, o Ipea realizou na quinta-feira, 27, um seminário em Brasília para apresentação de estudos que tratam da violência contra o sexo feminino”. A mídia brasileira ficou alvoraçada diante dos dados que foram trazidos a público. Nas redes sociais até hoje não se fala em outra coisa. Até um protesto virtual foi iniciado com o #eunãomereçoserestuprada. Mas o que me chamou atenção foram dois artigos de Veja tentando desqualificar a pesquisa.

O primeiro artigo de um tal Rodrigo Constantino, intitulado “Estupro é culpa da Mulher seminua? Não, mas…”, nesse artigo fica claro que o articulista nem leu a pesquisa e fez uma análise completamente senso comum a respeito. Claro que foi interessante, pois ao argumentar, o autor apenas reafirma nossa percepção social diante da violência contra a mulher. Quando afirmo que o mesmo nem leu a pesquisa é que na verdade, 70% dos estupros são praticados contra crianças e adolescentes e não contra mulheres seminuas. E não importa se o Brasil não é a Suíça. O que não podemos ficar parados é diante de tanta impunidade para estupradores no Brasil. A maioria das pessoas acha que devemos resolver tudo isso em casa. Isso é o que a pesquisa revela, isso explica porque apenas 10% dos casos são denunciados. O articulista não leu a pesquisa, logo não foi capaz de perceber que as famílias diante desse tipo de crime, acreditam que têm que resolver isso por eles mesmos e que não precisam levar para a polícia. É isso que essa pesquisa traz. Traz à tona nossa percepção social. Essa percepção errônea diante de um crime que já se tornou algo cultural e uma questão social.

O segundo artigo é de um tal de Felipe Moura Brasil. Ele brinca, embora o assunto seja sério, ele ironiza que quem merece ser atacada não é a mulher e, sim, a pesquisa do Ipea. Mas e as pessoas atacadas, violentadas, estupradas, abusadas, feridas psicologicamente, encoxadas nos metrôs, no ônibus? A gente brinca com isso também? E Vítima vai achar engraçado? Vamos culpar o Ipea? O autor afirma que é capcioso perguntar se“Mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas” e “Se as mulheres soubessem se comportar haveria menos estupros?”. Segundo o articulista as manchetes publicadas na mídia com base nos dados da pesquisa, feita com base nas respostas levam a crer que os homens são muito malvados e culpam as mulheres pelo estupro. Acontece que a primeira frase não fala de estupro, mas genericamente de ataque; e a segunda relaciona um mau comportamento também genérico das mulheres à diminuição do índice de estupro.”

Em outra parte ele opina: “Não faço ideia se o índice de estupros diminuiria se as mulheres vestissem burcas, mas é perfeitamente compreensível o raciocínio de que se elas não usassem roupas tão provocantes atrairiam menos a atenção dos estupradores, assim como, se os homens não passassem de Rolex ou de Ferrari em áreas perigosas, atrairiam menos a atenção de assaltantes. E nada disso seria culpá-los dos crimes que os demais cometeram. A frase do IPEA é vaga e induz os entrevistados a pensar na atração que mulheres desnudas despertam em potenciais estupradores e a especular que um cuidado maior diminuiria a incidência de estupros, o que em nada depõe contra o caráter desses entrevistados, muito menos comprova o seu “machismo”. Chega de citar isso.

Bom, os artigos de revistas como a Veja, tanto o de Felipe Moura, como o outro do tal de Rodrigo Constantino; nos mostram que não há interesse, dessa mídia, de fato pelo assunto tratado; mesmo se desconsiderarmos essas duas perguntas feitas pelo Ipea (uma vez que a pesquisa é muito maior, são dois relatórios); se analisarmos com atenção as duas partes do relatório apresentado no seminário, ainda perceberemos que se trata de uma revelação alarmante. Até por que um Seminário é um evento para iniciar um debate e esse foi iniciado, aliás a prova disso é que a mídia e a população não fala em outra coisa.

 E uma pergunta, mesmo de forma capciosa como foi defendido por Veja, ainda é algo esclarecedor. Há várias maneiras de uma pessoa revelar o que pensa sobre algo. Mesmo numa resposta a uma pergunta tendenciosa, pode trazer a confissão de um comportamento. Não há dúvida quanto a nossa percepção machista, sim, sobre as coisas. Afirmo isso, uma vez que não há como negar, fingir que o problema está em como foi feita a pesquisa. Tudo bem que podemos criticar, sim, até por que é a primeira vez que uma pesquisa como essa é feita no país. E, claro, toda primeira vez é questionável, mas então que façam melhor. O problema existe. Vamos fazer o quê? Negá-lo? Vamos fingir que nossa percepção social é perfeita? E que o erro é da pesquisa? Vamos culpar a pesquisa por 527 mil vítimas serem estupradas todo ano? Cabe lembrar ainda, que são dois relatórios. Inclusive dados que serão de muita utilidade para as famílias, os cidadãos e profissionais como conselho tutelar, professores, uma vez que revela a maneira como a maioria dos ataques são feitos dentro de casa ou na vizinhança, por pais, por padrastos, amigos, vizinhos.

Infelizmente há uma tendência nossa de culpar, sim, a vítima, muitas mães acreditam que foram suas filhas menores de idade que se insinuaram para os padrastos e que por serem homens não resistiram. Aconselho a certos articulistas e certas mídias a esquecerem essa politicagem que vem fazendo e começarem a respeitar as 527 mil vítimas de estupros anuais em que apenas 10% dos casos são denunciados, uma vez que temos em nossa concepção de que não há necessidade de denunciar, acreditamos que a família tem de resolver seus próprios problemas, com isso instaura-se e perpetua a cultura da tolerância ao estupro em nosso país e graças a artigos cheios de falácias como esses; as pessoas nem se darão ao trabalho de analisar a segunda parte da pesquisa que foi feita com dados do Ministério da Saúde e que traz revelações valiosas para a população.

Vamos largar essas picuinhas e nos unirmos em torno de um problema que não pode ser negado. Está estampado nas páginas policiais todos os dias e está em nossas famílias, está em nossa vizinhança, está em nossa cidade. A mídia tem um papel social a desempenhar. Vamos parar de derrubar quem tenta agir positivamente nesse país e também fazermos nossa parte. Inclusive, as consequências, em termos psicológicos, para esses garotos e garotas que sofrem esses abusos e estupros “são devastadoras, uma vez que o processo de formação da autoestima – que se dá exatamente nessa fase – estará comprometido, ocasionando inúmeras vicissitudes nos relacionamentos sociais desses indivíduos.”

* Formado em Letras pela Universidade de Brasília, Cláudio Bertode é Poeta, Cronista e Educador na Rede Pública e Privada do Estado de Goiás.

Claudio Bertode

Formado em Letras pela Universidade de Brasília, Cláudio Bertode é Poeta, Cronista e Educador na Rede Pública e Privada do Estado de Goiás.