Lenda urbana e sonhos

Paredona impregnada de fotos velhas. Nada de fotografias das festas de aniversário, se houveram festas ninguém lembrou de registrar. Apenas uma fotografiazinha um pouco desfocada e mal moldurada de minha vó comigo embrulhado em fraldas e cueiros, como se o início de minha infância fosse apenas aquela foto.

Todos nada diziam. Silêncio compartilhado, decretado, escarrado a olhos vistos, como se suprimir isso de mim fosse o magnífico elixir da felicidade.

Disse ela, vó-tonha, que foi num dia muito muito especial que escolheu meu nome. Durante muito tempo essa história já foi tão boa de se ouvir…

Noite com muita chuva, hospital maternidade. Médico de plantão velhinho, mãos trêmulas, mãos de pinguço. Quase meia noite nasceu aquela coisinha miudinha.

Demorou um pouco a chorar, o médico já quase desistindo. Aí chomigou fraquinho mais parecendo um breve gemido, um desafinado ruído. Ficou em observação doze longos dias, nem tinha ninguém escolhido um nome. Como não tinha um nome? Todos, mesmo os que nascem meio mortos merecem um nome. Então vó-tonha resolveu que era melhor escolher um nome logo, pois se não vingasse, melhor que tivesse um nome. As enfermeiras também ajudaram, aí minha vó disse que no décimo terceiro dia teve um sonho. No sonho ela escolhia o nome Gabriel. Arcanjo mensageiro de Deus… Era delicioso ouvir essa destoante mitologia de meu nascimento na voz museológica de minha vó, que fixava seus olhos na fotografia por uns segundos e depois me mandava ir comprar seus cigarros na venda da esquina.

___Pode ficar com o troco, tá bom? Compra um sonho pra você…

Ela nem percebia que agora eu era homem feito e que seus trocos de cigarro não compram os sonhos de um homem de 35 anos…

Claudio Bertode

Formado em Letras pela Universidade de Brasília, Cláudio Bertode é Poeta, Cronista e Educador na Rede Pública e Privada do Estado de Goiás.