Jaraguá e seu incrível “lago seco”

Era um dia muito feliz, a primeira vez que meu pai, depois de muito anos, unia toda a família para que fizéssemos alguma coisa juntos. Meu irmão estava eufórico. Queria entrar na lama, minha mãe ficava o tempo todo tentando que ele não se lameasse; eu e meu pai ríamos e ela ficava muito vermelha de raiva. O lugar era muito sem noção. Aqui todos conhecem como lago seco. É que sai prefeito e entra prefeito e nada. Todos gastam alguns milhões em véspera de campanha. Meu pai diz que é para eles poderem financiarem suas campanhas. Não sei se tem verdade nas palavras do meu velho, mas uma coisa é certa: tem de ser muito incompetente para gastar tanto dinheiro dos recursos públicos com algo que nunca se concretiza. Vem um prefeito e faz tudo sem planejar, logo vem o outro e começa tudo novamente. Já houve embargo porque havia esgotos caindo aqui dentro, embargo porque não tinha projeto pronto, embargo porque não explicou como iriam enchê-lo ao final, embargo por questões políticas quando a oposição não estava ganhando nada, embargo só por embargar mesmo para pedir mais verba e tal. A questão é que eu não estava ligando nenhum pouco se tinha ou se não tinha água. Na época eu não tinha noção de tão estúpido é alguém pegar tanto dinheiro público e jogar pelo ralo. Podia estar construindo creche, escola, postos de saúde. Mas não, estão gastando com algo que não está chegando a lugar nenhum.

Mas foi um dia incrível, ficamos ali rindo, falando mal de todos os prefeitos que usaram esse lago como trampolim para lavar dinheiro ou algo assim. Lembramos da paisagem como era antes de tudo isso. Tinha um pasto, onde meu pai criava algumas vacas, todo madrugada ele vinha tirar o leite. Tinha uma grota enorme logo acima, e tinha muitas nascentes de água cor de ferrugem.  As pessoas jogavam lixo por toda parte, dentro das grotas. Crianças brincavam por todas as partes em meio ao lixo e a lama vermelha das nascentezinhas. Lembro do dia em que meu pai foi laçou uma vaca, mas não conseguiu segurar. Foi arrastado por vários metros. Eu cai na risada e ele gritando para eu ajudar. Corri e peguei a ponta da corda, mas a vaca era muito forte, arrastou nós dois. Nos sujamos de lama e, sei que meu pai nunca esqueceu aquele dia, pois sempre que venho aqui é a primeira lembrança que me aparece para dizer um olá… Agora, nem dá para imaginar como era a paisagem antes desse enorme buraco. As pessoas fazem caminhada no calçadão e nem se lembram que tinha uma grota enorme e que minava água com ferrugem por todos os lados. Mesmo que não tenha sido terminado, esse lago melhorou a paisagem por aqui. Mesmo que muito político usou dessa obra para gastar muito e muito dinheiro. Mesmo que ninguém não tenha explicado como vamos fazer para encher esse enorme buraco que já tem mais de 15 anos. Meu pai morreu sem ver água flutuando por esse enorme e côncavo buraco. E, eu, será que vou viver até que alguém responda de onde vamos achar água para nosso lago seco?

Claudio Bertode

Formado em Letras pela Universidade de Brasília, Cláudio Bertode é Poeta, Cronista e Educador na Rede Pública e Privada do Estado de Goiás.