Habemus papam: a fumaça branca e o cachimbo da paz nas mãos de Francisco

“O mundo tem um novo papa”. Nosso conceito de mundo em frases como essa é muito medíocre e generalizante; mesmo que saibamos que a maior parte da população mundial nem se importa com a existência ou não do catolicismo apostólico, ousamos dizer que se trata de uma boa nova para o mundo inteiro. Mesmo os ateus são pegos de surpresa  imaginando um mundo em que uma religião voltasse a ser o trampolim para sermos pessoas melhores.

Nosso santíssimo e carismático hermano, no entanto, antes de alçar voos ou querer lançar as redes em alto mar para fisgar novos cristãos para engrandecer o plantel, na África, por exemplo, ou em outras terras hermas e remotas e carentes desse ópio que é a fé. Vai travar uma batalha dentro da própria igreja romana. Inclusive, sabemos que outra batalha da nova santidade vai ser  tentar trazer de volta a família ocidental ao seio da igreja. Não estamos falando só da guerrilha intensa e midíatica entre o catolicismo e as novas e antigas seitas rivais que vêm oferecendo, diga-se de passagem, muto mais vantagens aos fiéis. O que assinalamos é que as ovelhas estão todas se desgarrando, perdidas e desorientadas.

Claro que em países como o Brasil ainda damos muito valor ao fato de uma pessoa ter uma religião e se for cristão apostólico então, como dizia minha finada vozinha: “Vixi maria!”. Todavia, na Europa, a maioria das pessoas não frequentam igreja alguma, não professam religião alguma. A descrença assolou o europeu diante de tantos escândalos envolvendo vaticano, padres pedófilos, bispos racistas, papas nazistas e fascistas, dossiês de 300 páginas, mordomos falastrões, bancos santos em que até Bin Laden abriu conta e por aí vai.

Mas o mundo católico apostólico quer e precisa acreditar que da renúncia histórica de Bento XVI, possa vir alguém que refrigere as almas cansadas e desgarradas. O mundo ocidental quer ter um restinho de fé de que a renúncia foi um gesto  de humildade digno dos antigos cristãos bíblicos que apanham e viravam a outra face. Um gesto de uma humanidade linda em se admitir fraco, não covarde por fugir de uma guerra quixotesca, mas apenas renunciar em favor de alguém mais jovem, mais ousado e mais sadio.

Ninguém precisa saber a verdade da renúncia e nenhum cristão precisa reconhecer que o cristianismo estava por um triz diante de tantas denúncias; aliás, temos de dizer que os homens são fracos e comentem erros, mas a igreja é santa e suas bases sólidas nunca se abalarão diante de ínfimos atos de fraqueza humana. Até por que a palavra verdade nunca foi bem-vinda no vocabulário dogmático do cristianismo.

Mais sábio seria afirmar que o dogma é e será sempre o maior inimigo da verdade. Mas convenhamos, o mundo ocidental não precisa de verdades, chega dessa busca, basta, abaixo a verdade com suas unhas cortantes  e seus enleios. O homem ocidental deveria estar farto de tentar desvelar esse véu diáfano que quanto mais puxamos, mais se cobre. O que todos precisam é de um papa novo, que tenha uma origem humilde, com um espírito de compaixão. Um símbolo de liderança, que se encaixe na antiga imagem da despretensão que procuramos no bom cristão. Um espírito de desapego aos bens materiais, um novo Francisco de Assis, e por que não? Que traga uma nova mensagem de esperança aos milhões e milhões de corações que já estão fartos de escândalos.

Vamos torcer para que o mundo possa realmente encontrar, na figura de Fracisco I, a tão sonhada santidade e retidão perdida e que frustam tantos cristãos. E que estes corações e almas esperançosas possam com muita fé gritarem: “Habemus papam!”.

 

Cláudio Bertode

S.O.S. Voz

Claudio Bertode

Formado em Letras pela Universidade de Brasília, Cláudio Bertode é Poeta, Cronista e Educador na Rede Pública e Privada do Estado de Goiás.