Tema: Estupro no Brasil, uma tolerância social à violência contra a mulher

Tema: Estupro no Brasil: Uma tolerância social à violência contra a mulher

 

Textos motivadores:

Texto I

Tolerância social à violência contra as mulheres

“Homem que bate na esposa tem que ir para a cadeia”. Concordaram com esta
afirmação, total ou parcialmente, 91% dos entrevistados em maio e junho de 2013 pelo
Sistema de Indicadores de Percepção Social (SIPS) do Ipea. A tendência a concordar
com punição severa para a violência doméstica transcendeu as fronteiras sociais, com
pouca variação segundo região, sexo, raça, idade, religião, renda, ou educação. Nada
mais, nada menos que 78% dos 3.810 entrevistados concordaram totalmente com a
prisão para maridos que batem em suas esposas. Além disso, 89% tenderam a discordar
da afirmação “um homem pode xingar e gritar com sua própria mulher”.

Infelizmente, seria prematuro concluir, com base nesses resultados, pela baixa tolerância
à violência contra a mulher na sociedade brasileira, pois a mesma pesquisa oferece
evidências no sentido contrário. Quase três quintos dos entrevistados, 58%,
concordaram, total ou parcialmente, que “se as mulheres soubessem se comportar
haveria menos estupros”. E 63% concordaram, total ou parcialmente, que “casos de
violência dentro de casa devem ser discutidos somente entre os membros da família”.
Também, 89% dos entrevistados tenderam a concordar que “a roupa suja deve ser
lavada em casa”; e 82% que “em briga de marido e mulher não se mete a colher”.

Há algo aparentemente paradoxal no fato de parte expressiva dos entrevistados tender a
concordar tanto com essas últimas sentenças quanto com a que preconiza a prisão para o
marido violento – que poderia ser vista como a intromissão da colher do Estado na briga
do casal, com a inexorável consequência de tornar pública a lavagem da roupa suja.

http://www.ipea.gov.br/portal/images/stories/PDFs/SIPS/140327_sips_violencia_mulheres.pdf

Texto II

Crianças e adolescentes são 70% das vítimas de estupro

Encerrando o Mês da Mulher, o Ipea realizou nesta quinta-feira, 27, um seminário em Brasília para apresentação de estudos que tratam da violência contra o sexo feminino. Além de uma edição do Sistema de Indicadores de Percepção Social, foi apresentada a Nota Técnica Estupro no Brasil: uma radiografia segundo os dados da Saúde. É a primeira pesquisa a traçar um perfil dos casos de estupro no Brasil a partir de informações de 2011 do Sistema de Informações de Agravo de Notificação do Ministério da Saúde (Sinan).
Com base nesse sistema, a pesquisa estima que no mínimo 527 mil pessoas são estupradas por ano no Brasil e que, destes casos, apenas 10% chegam ao conhecimento da polícia. A Nota Técnica é assinada pelo diretor de Estudos e Políticas do Estado, das Instituições e da Democracia, Daniel Cerqueira, que fez a apresentação, e pelo técnico de Planejamento e Pesquisa Danilo Santa Cruz Coelho.
Os registros do Sinan demonstram que 89% das vítimas são do sexo feminino e possuem, em geral, baixa escolaridade. Do total, 70% são crianças e adolescentes. “As consequências, em termos psicológicos, para esses garotos e garotas são devastadoras, uma vez que o processo de formação da autoestima – que se dá exatamente nessa fase – estará comprometido, ocasionando inúmeras vicissitudes nos relacionamentos sociais desses indivíduos”, aponta a pesquisa.
Em metade das ocorrências envolvendo menores, há um histórico de estupros anteriores. Para o diretor do Ipea, “o estudo reflete uma ideologia patriarcal e machista que coloca a mulher como objeto de desejo e propriedade”. Ainda de acordo com a Nota Técnica, 24,1% dos agressores das crianças são os próprios pais ou padrastos, e 32,2% são amigos ou conhecidos da vítima. O indivíduo desconhecido passa a configurar paulatinamente como principal autor do estupro à medida que a idade da vítima aumenta. Na fase adulta, este responde por 60,5% dos casos.
Em geral, 70% dos estupros são cometidos por parentes, namorados ou amigos/conhecidos da vítima, o que indica que o principal inimigo está dentro de casa e que a violência nasce dentro dos lares. A pesquisa também apresenta os meses, dias da semana e horários em que os ataques costumam ocorrer, de acordo com o perfil da vítima.

http://www.ipea.gov.br/portal/index.php?option=com_content&view=article&id=21849&catid=8&Itemid=6

A análise feita pelo Ipea leva a concluir que temos socialmente a tendência analisar a questão do estupro como sendo culpa da vítima. Essa nossa visão social do problema faz com que não haja punições adequadas, faz com que continue a perpetuar essa prática tão danosa.  Leia os textos retirados do relatório original; em seguida, redija um artigo de opinião, expondo de maneira coerente seus pontos de vista a respeito desse tema.

Claudio Bertode

Formado em Letras pela Universidade de Brasília, Cláudio Bertode é Poeta, Cronista e Educador na Rede Pública e Privada do Estado de Goiás.