Dia da família: desrespeito aos valores familiares tradicionais ou uma maneira inclusiva e viável para lidar com a diversidade

 
Após ler cada um dos textos motivadores abaixo, que são na verdade, apenas mecanismos de provocação para sua reflexão, redija um texto dissertativo argumentativo a respeito do enfoque temático: “Dia da família: desrespeito aos valores familiares tradicionais ou uma maneira inclusiva e viável para lidar com a diversidade
Texto motivador
Texto I

A Escola Municipal de Educação Infantil Dalmo do Valle Nogueira, no bairro Vila Sônia, em São Paulo, resolveu não comemorar mais as datas comemorativas tradicionais. No lugar delas, a escola incluiu sem seu calendário o “Dia da Família”, comemorado no dia 24 de março.

Em post em sua página no Facebook, a escola informou à comunidade escolar sua decisão e apontou os motivos da decisão. Leia o recado na íntegra:

Sobre datas comemorativas…

Prezadas famílias,
Em mais um ano de bastante discussão, a escola resolveu não realizar eventos nas tradicionais “datas comemorativas” (páscoa, dia das mães, dia dos pais, natal, etc). Achamos importante dividir com vocês algumas razões:
1) As datas comemorativas foram tomadas por um aspecto muito comercial (compras, presentes, consumo) e reforçar essa ideia (do carinho estar necessariamente ligado ao presente) não faz parte dos nossos objetivos;
2) Dia das mães e dia dos pais desconsideram a diversidade das famílias existentes. Tem família que não tem mãe presente, família que não tem pai, famílias dos mais variados tipos. Por que dar tanto valor para o dia das mães e dos pais sabendo que não corresponde à realidade de todas nossas crianças? Não seria muito melhor fazer “dia da família”? Achamos que sim!
3) A escola pública é laica e não professa nenhum credo, respeitando a pluralidade de religiões de nosso povo. Portanto, datas comemorativas cristãs não serão tema do nosso dia a dia por também considerarmos que a religião é da intimidade de cada família e deve ser tratada em casa.
4) Algumas festas insistem em colocar as crianças em “apresentações” que acabam se tornando uma tortura para professoras e crianças:

ensaios, vergonha de participar e se apresentar, tristeza pela ausência de um familiar na apresentação, choro… Podemos brincar muito de cantar e dançar na escola sem ter que passar por momentos como esse. A intenção da apresentação tem q surgir da própria criança, e não somente responder a um desejo do adulto.
A nossa escola é espaço de cultura brasileira e trabalharemos para ampliar o repertório de todas as crianças, sem discriminação e exclusões. Todas as famílias são bem vindas nos eventos abertos e também para conhecer o nosso trabalho, que busca trazer novidades e conhecimentos, sempre respeitando as crianças pequenas e seu modo vivo e alegre de ser.
Atenciosamente,
Emei Des. Dalmo do Valle Nogueira

Esse ano, para a comemoração do primeiro Dia da Família, escola e alunos convidaram todas as famílias para um dia cheio de atividades para disseminar informação sobre o combate ao mosquito da dengue. Além de uma palestra com a equipe de SUVIS sobre a situação  do bairro, também fizeram uma caminhada de pais, alunos, funcionários da escola e SUVIS passando por quarteirões na redondeza, para conversar com moradores vizinhos e comércio local sobre a situação da dengue no nosso bairro.

Retirado de : https://catraquinha.catracalivre.com.br/geral/aprender/indicacao/escola-infantil-decide-nao-festejar-datas-comemorativas-tradicionais-e-cria-dia-da-familia/, acessado dia 17.04.2016

Texto II

 

Dia da Família é alternativa inclusiva nas escolas

Comemoração contempla diferentes composições familiares

Quando Marcos Leme foi buscar o filho, Wesley, de seis anos, na escola, o pequeno carregava o presente que tinha feito para o Dia das Mães. O pai sugeriu que o menino desse a lembrança para uma de suas avós. Sem dar ouvidos, logo que chegou em casa, o garoto entregou a toalha pintada para o outro pai, Paulo Reis dos Santos. Nas comemorações de Dia dos Pais, como neste domingo (9), o casal participa das atividades escolares. “Fazemos questão de dizer cotidianamente a ele que somos uma família, e uma família feliz”, explica Paulo.

 

Para atender as diversas composições familiares, algumas escolas deixaram de realizar atividades específicas de Dia dos Pais ou Dia das Mães

Para atender as diversas composições familiares, algumas escolas deixaram de realizar atividades específicas de Dia dos Pais ou Dia das Mães
Foto: iStock

 

Além dos presentes, algumas escolas promovem comemorações para pais ou mães. Anna tem 11 anos e não convive com o pai, mas nem por isso deixa de participar. Geralmente, quem aproveita os eventos é a mãe, Márcia Gabrielle Machado. “Uma ou duas vezes o marido da minha mãe foi como ‘o pai’. Mas eu gosto de ir nas festinhas de Dia dos Pais, sempre me divirto muito com ela. O presente ela já fez até para a madrinha, já que não tem o ‘dia da dinda’, mas a festa geralmente é minha”, comenta Márcia, que vê a filha muito tranquila em relação à ausência do pai.

Nos dois casos, a postura dos adultos é importante, segundo Vinícius Sauer, psicólogo que atua em escolas e na área de sistêmica familiar. Ele afirma que a forma como a criança de um núcleo familiar diferente do triângulo “pai-mãe-filhos” vai lidar com esse tipo de evento é diretamente ligada ao modo como a própria família se apresenta para os pequenos, sendo o diálogo uma ferramenta fundamental.

Por compreender que existem diversas composições familiares, algumas escolas deixaram de realizar atividades específicas de Dia dos Pais ou Dia das Mães para realizar comemorações dedicadas à família. É o caso do Colégio Santo Américo, em São Paulo. Desde 2013, a escola, de confissão católica, realiza a semana da família no final de agosto, quando os alunos do maternal ao terceiro ano do ensino médio desenvolvem trabalho com esta temática. A programação é encerrada no sábado, com uma festa, em que cada estudante convida aquelas pessoas que fazem parte do seu núcleo familiar para participar dos jogos, brincadeiras, feira do livro, oficinas de cerâmica entre outras atrações.

A diretora pedagógica do colégio, Elenice Lobo, explica que uma das motivações da iniciativa é evitar constrangimentos. “Existem famílias que se separam, que constituem uma nova formação, às vezes multiparentais. Fazer uma festa de Dia dos Pais ou das Mães pode criar uma saia justa, quando na verdade a ideia é promover um momento feliz. Por isso fizemos esta escolha, que é mais democrática e acaba agradando a todos.”

Elenice garante que a nova comemoração foi aprovada pela comunidade escolar e brinca que a medida acabou com um outro problema: antes, os adultos ficavam comparando os eventos. “Algumas mães diziam que o Dia dos Pais era mais divertido.” Os presentes ainda são confeccionados, mas a criança tem a opção de não fazer ou dar para qualquer pessoa com quem possua vínculo afetivo, o que normalmente acontece. Mesmo com as mudanças, a escola continua realizando uma missa dedicada às mães, no segundo sábado de maio e uma aos pais, em agosto.

Para Sauer, é muito positivo que as escolas desenvolvam atividades inclusivas para os diferentes grupos familiares, entendendo a diversidade. “É um absurdo dizer que família é apenas homem, mulher e filhos. Isso deixa marcas nas crianças. Elas acabam absorvendo um conflito que não é delas, é da sociedade.” De acordo com o profissional, é na puberdade que algumas pessoas vão superar o problema.

Na infância, o processo é mais complicado. Sauer lembra que mesmo os contos de fada reproduzem um tipo ideal com rei e rainha, príncipe e princesa, etc. Por isso, o movimento de permitir que a criança entenda que sua família é igual às outras, independente da composição, é bastante complexo e, segundo ele, ações das escolas nesse sentido precisam ser saudadas.

http://noticias.terra.com.br/educacao/dia-da-familia-e-alternativa-inclusiva-na escolas,8b458e2c7498d75e94f5adcfb223cf2ef7vzRCRD.html

Texto III

Escolas mudam tradição e criam Dia da Família para evitar exclusão

Nas escolas onde o Dia da Família foi adotado, a reação das crianças tem sido natural, mas muitos pais são contra

Clarissa Pacheco
clarissa.pacheco@redebahia.com.br

Foi durante uma comemoração de Dia dos Pais da Escola Lua Nova que o pequeno Lucca, então com 3 anos, surpreendeu as mães Érica e Milena, que foram juntas pela primeira vez à festa na escola do filho. “Chegamos lá, sentamos… e ele se sentou no colo de um pai e ficou assistindo a um show de palhaços. Depois, o grupo disse: ‘que vocês tenham um dia maravilhoso com o pai de vocês, saiam para passear com o pai de vocês’. E meu filho com a mão no queixo ouvindo isso. Se aquilo doeu em mim, imagina nele”, lembra Érica, falando do episódio de três anos atrás.

Quando Érica Matos, psicóloga, e Milena Santana, arquiteta, decidiram ter um filho, há pouco mais de seis anos, elas já se preocupavam com os desafios da criança. E aquela situação do Dia dos Pais motivou uma mudança na escola. Desde então, a Lua Nova promove outra festa duas vezes ao ano: a do Dia da Família.

“Eu fui brigar pelo direito da gente. Foi um mal-estar, ele adoeceu, ficou 15 dias sem ir na escola. Eu fui repensar”, contou Érica. Boa parte das escolas infantis do Brasil ainda comemora, no segundo domingo de maio e no segundo domingo de agosto, os dias das Mães e dos Pais, respectivamente.


Para evitar que o filho Lucca passasse por constrangimentos no Dia dos Pais, as mães Érica e Milena batalharam por um dia que homenageia famílias com qualquer configuração

Mas, ao procurar a direção, Érica argumentou que Lucca não era a única criança que poderia passar por situações semelhantes: além dos filhos de casais homossexuais, havia outras crianças que não tinham pai ou mãe, ou criadas por avós, tios, e que acabam se sentindo excluídas.

Ela e Milena sugeriram a criação do Dia da Família e indicaram  uma pesquisa entre os pais. Nem precisou. A ideia foi abraçada. Hoje, é sucesso na escola e uma prática adotada em outras instituições.

“Está lá nas diretrizes curriculares a questão do respeito às diferenças de gênero. Mas viver isso na prática ainda é um grande desafio, para nós também. A gente busca fazer as crianças pensarem”, disse a diretora pedagógica da Escola Lua Nova, Walkyria Amaral.

O funcionário público Nilo Cathalá, 51, já frequentou festas de Dia dos Pais nas escolas dos filhos. Hoje, acha que o Dia da Família é a melhor alternativa. “Eu acho até uma coisa meio brega e fora de moda, esse negócio de Dia do Pai, Dia da Mãe. É como elevador social: a gente vai, mas não existe mais aquela diferença”, brincou.

Há 11 meses, Nilo perdeu a esposa, vítima de um infarto. Hoje, é pai e mãe dos dois filhos: Lucas, 8, e Marco Antônio, 12. “Eu acho muito bacana assumir essa parte de Dia da Família, porque as famílias estão muito modificadas. Tem que acabar com isso de que família é só pai, mãe, filho”.

Quem também vê a festa com um olhar positivo é a aposentada Áurea do Nascimento Cerqueira, 78. Ela criou dois dos 18 netos, hoje com 17 e 14 anos, depois que a mãe deles os abandonou quando o mais novo tinha apenas 1 ano. O pai vive com outra família e os visita com alguma frequência. Mas quem ia mesmo às festas na escola dos netos era dona Áurea.

Espalhou
A Lua Nova não é a única escola da capital que adotou o Dia da Família. Hoje, existe essa comemoração em escolas tradicionais como o Antônio Vieira e o Instituto Social da Bahia (Isba). Para Walkyria Amaral, o desafio é “incluir sem ser excludente”.

Em 1998, o Colégio Miró instaurou o Dia da Família, porém sem deixar de festejar os dias dos Pais e das Mães. “Com o passar do tempo, a gente viu que não era viável, eram muitas festividades. Ficou um hiato sem que a gente comemorasse o Dia da Família e este ano a gente retomou”, disse a diretora pedagógica da escola, Maria Clara Coelho.

Os motivos que levaram o Miró a estabelecer um dia para celebrar a família são os mesmos que guiaram as escolas Lua Nova e a Villa Criar, que fica em Vilas do Atlântico, Lauro de Freitas.

“O que a gente via era a criança frustrada, porque se trabalhava uma semana falando da mãe, do pai, e quando chegava a festa e a mãe não podia comparecer, ou porque não teve tempo, ou porque já faleceu, ou porque tem uma relação dolorosa”, explicou Telma Gottschalk, coordenadora pedagógica da Villa Criar.

Desafios
O cartunista e escritor Luis Augusto, 42, que é  pai e mãe de Ben,  4 anos, acredita que o posicionamento da escola é importante para a formação das crianças enquanto cidadãs.

“Eu acho que a escola tem que voltar aos poucos a ser um centro de formadores, e não de acúmulo de conhecimento. A sociedade está em mutação e a gente só sobrevive porque se adapta ao mundo”, disse.


Luis Augusto faz papel de pai e mãe de Ben, cuja escola ainda não definiu se manterá o Dia da Família

Para Érica Matos, a proposta da escola é fundamental. “Fui na escola quatro vezes para ter certeza de que eles aceitariam a condição de duas mães. E a Lua Nova encara a subjetividade de uma forma maravilhosa”, disse.

A diretora Walkyria acredita que a escolha coincide com os valores e a proposta pedagógica. “Se a escola tem uma visão fechada em relação a isso, então fica mais difícil de essa família ser incluída”.

Muitos pais ainda são contrários à mudança
Nas escolas onde o Dia da Família foi adotado, a reação das crianças tem sido natural, mas muitos pais são contra. Segundo Maria Clara Coelho, coordenadora pedagógica do Colégio Miró, houve protestos. “Teve um desconforto, especialmente pelas mães, mas nós tivemos mais retornos positivos”, disse. A diretora da Villa Criar, Telma Gottschalk, disse que os pais cobram as datas tradicionais.

“A gente valoriza, mas vai mostrando para eles que o importante é a família”. O funcionário público Nilo Cathalá conta que os filhos sentiram na pele o preconceito pela ausência da mãe. “Tem o ranço da família tradicional. Colegas falavam para os meninos: ‘sua mãe já morreu, você não tem mãe’”, contou.

Já o cartunista Luis Augusto conta que, na Escola Pimpolho, o filho Ben nunca sofreu preconceito. Autor do personagem Lucas, do Fala Menino, ele lançará em novembro um livro com a história do filho até o primeiro dia de aula. Mas o Dia da Família, que este ano será celebrado pela primeira vez  na Pimpolho, não deve continuar no ano que vem. Segundo a diretora, Maria de Lourdes Xavier, há muitos pais contrários à ideia.

Dia da Família desenvolve respeito à diversidade, afirma especialista
Para a psicóloga clínica Daniela Nunes, a decisão da escola em comemorar o Dia da Família certamente terá efeitos sobre as crianças e os pais. Estes efeitos terão tanto traços positivos quanto negativos.

“Me parece interessante a proposta do Dia da Família, principalmente se considerando que estamos numa época de novas configurações familiares, numa época em que não temos mais aquela configuração patriarcal”, disse. Ela considera que as escolas devem fazer tentativas de se adaptar e também fazer com que as crianças possam se adequar à nova realidade.

“Isso abre possibilidades, desde que, com isso, não seja retirada a importância das funções materna e paterna, por mais que essas funções não sejam exercidas pela figura do pai ou da mãe”, disse.

Ana Manoela Costta, uma das orientadoras pedagógicas da Escola Lua Nova, diz que as crianças têm muitos questionamentos. “Não é algo que não levante uma certa interrogação, principalmente levando em consideração a postura e a referência de família, mas a gente não tem episódios de desrespeito”, disse.

Para ela, pedagogicamente, a adoção do sistema funciona como um “compromisso com a formação do sujeito”. Psicologicamente, possibilita ao indivíduo conviver com a diversidade.

http://www.correio24horas.com.br/detalhe/noticia/escolas-mudam-tradicao-e-criam-dia-da-familia-para-evitar-exclusao/

 

 

Claudio Bertode

Formado em Letras pela Universidade de Brasília, Cláudio Bertode é Poeta, Cronista e Educador na Rede Pública e Privada do Estado de Goiás.