Crônica: Pastor entra na igreja com carro importado

Por Cláudio Bertode*

Irmã Emereciana a muito custo se levantou; por estar um pouco obesa não facilitava nem um pouco. Olhou em volta, esticou as mãos enrugadas e segurou o encosto da bancada para se apoiar melhor. Foi empurrada e quase perdeu o equilíbrio. Com esforço, deu mais alguns passos. Notou da pior forma que ia ser bem difícil caminhar sendo acotovelada de todas as formas pela multidão que se aglomerou no corredor da Igreja. Além disso, sua artrite dificultou bastante cada passo. Era, entretanto, algo necessário, um sacrifício que honraria as palavras do pastor Ediovaldo. Ele foi profético; homem tão bondoso ao compartilhar seu sonho da noite passada. Nesse sonho, dizia que todos que quisessem ter na vida a tão sonhada prosperidade deveriam tocar seu Citroem C4 Lounge exclusive, na linda cor blanc nacre, ar-condicionado digital,  partida do motor sem chave, câmera de ré, seis airbags, freios ABS com distribuição de frenagem, assistência para frenagem de emergência, controles de estabilidade e de tração, sensores de chuva e luminosidade,  volante multifuncional com comandos de som, tela de sete polegadas com GPS e DVD, entrada auxiliar USB, Bluetooth e monitoramento de veículos nos pontos cegos e, claro, com câmbio automático, rodas de liga leve aro 16, volante ajustável, bancos de couro, incrementado com o pequeno opcional pack select que traz faróis bi-xenon direcionais e teto solar elétrico.

Eis que então o pastor Ediovaldo num gesto de nobreza e humildade, que só um servo do Senhor consegue desempenhar com perfeição; trouxe o veículo belo e abençoado para que todos pudessem orar com as mãos sobre ele.

Irmã Emericiana estava quase lá, logo seus dedos finos, suas mãos trêmulas acariciariam a prosperidade profetizada pela boca do pastor. Ao tropeçar numa criança, ela novamente quase caiu. Suas costas doeram, mais um pouco, só mais um pouquinho e estaria lá. Irmã Filipa já estava acariciando a maçaneta, alguns beijavam, outros lambiam. Muitos gemiam o aleluia; ou o glória a deus, ó glória, chabalalalá, ooó chabalalalá; o pastor falando em línguas como possuído de glória do espírito de deus. Irmã Emericiana já sabia o que iria pedir: o fim dessa maldita artrite, sem querer pedir muito; iria solicitar que desenrolasse logo o processo de sua aposentadoria.

Pareceu uma eternidade, mas ela conseguiu; foi muito rápido, quando ele colocou as mãos sobre aquela maravilha de bênçãos tudo ocorreu na relatividade de poucos segundos. Se pudesse, ela nunca mais tiraria as mãos dali, ó glória. Chabalalá, o pastor continuou. Aos poucos o êxtase foi diminuindo até que poucos ainda acariciavam, cheiravam e se maravilhavam. Por fim, o culto acabou, o carro foi então, com muito cuidado, retirado e todos saíram mais leves, cheios da vindoura prosperidade que só um pastor como o irmão Ediovaldo podia compartilhar com cada irmão que teve a felicidade de estar ali naquela noite.

* Formado em Letras pela Universidade de Brasília, Cláudio Bertode é Poeta, Cronista e Educador na Rede Pública e Privada do Estado de Goiás.

Claudio Bertode

Formado em Letras pela Universidade de Brasília, Cláudio Bertode é Poeta, Cronista e Educador na Rede Pública e Privada do Estado de Goiás.