Crônica: Os grilos da geração Z e o sono da minha geração

Quando ouso pensar que nada mais será capaz de me surpreender, aparece uma jovem secundarista, Ana Júlia, 16 anos, que vem de peito aberto, sobe em uma tribuna e olha nos olhos da Assembleia Legislativa e diz palavras em prol da cidadania que há muito tempo não eram ouvidas. Palavras que de tão pouco usadas já estão um pouco esquecidas por nossos velhos ouvidos. Eu e minha geração não somos capazes de dar vida a certos discursos. E se não somos capazes de dizer, imaginem como é grande nossa capacidade de ação. Somos, eu e minha geração, os representantes da inação, nossa natureza sedentária, não é só física, é maior no campo ideológico e político.

A voz daquela menina ainda ecoa em meus ouvidos, aquela voz triste e esperançosa, carregada da indignação de todos os estudantes do Brasil, que mesmo sabendo do desgaste psicológico, mesmo sabendo da difamação que estão e irão continuar sofrendo por parte da mídia, e por parte da população (analfabetos funcionais) que agem manipulados pela mídia que desinforma, continuam a lutar. Luta que não tem dinheiro envolvido, não tem ganhos materiais. Luta que se for vencida favorecerá mesmo os que hoje criticam, mesmo aqueles que difamam, que denigrem esses jovens nas redes sociais, nas ruas.

Confesso que até agora, enquanto escrevo, estou um pouco emocionado e, sim, sinto inveja dessa jovem, que está fazendo muito mais pelo país do que eu em toda minha vida de 41 anos de comodismo, não sou covarde, mas sou acomodado. Aprendi a ser assim, minha geração foi ensinada a abaixar a cabeça, a aceitar o mínimo como solução: salário mínimo, direitos mínimos, mínimos retornos dos impostos que pagamos. Até nossa capacidade de indignação é mínima, no máximo fazemos mimimi na rede social, quando muito blasfemamos um ou outro impropério contra o Governo durante alguma reunião familiar ou com os amigos. A sociedade e a mídia me ensinaram desde criança a ser um cidadão mínimo, aceitar que o pobre deve sempre pagar a conta para que os ricos continuem prosperando. Que as migalhas são a melhor recompensa para um cidadão pobre.

E de repente, vem essa jovem, por que eu tinha de ver aquele vídeo? Essa jovem, que eu não conheço vem e diz com todas as letras que ela quer uma escola melhor, que quer uma reforma do sistema, mas que ela quer sugerir, que ela e seus amigos, tão jovens quanto ela, sabem o que querem, que não são vagabundos e baderneiros e que são capazes de filtrar as informações e lidar com toda a pressão e agir. Eu me sinto envergonhado. Mas ao mesmo tempo orgulhoso, pois minha geração não foi capaz de lutar por nada, mas está sendo capaz de formar jovens como Ana Julia que farão desse país, um lugar melhor, farão dessa sociedade um lugar melhor.

Deus ilumine os passos e proteja cada uma dessas crianças que tomaram nas mãos essa luta e ao ocupar a escola em que estudam, passam mais do que uma mensagem ao Governo, mas ensina a mim e a cada um da minha geração, uma lição que a escola do meu tempo não foi capaz de me ensinar.

 

 

 

Quem quiser se emocionar também, pode assistir o discurso de Ana Júlia, no link abaixo:

 

 

Claudio Bertode

Formado em Letras pela Universidade de Brasília, Cláudio Bertode é Poeta, Cronista e Educador na Rede Pública e Privada do Estado de Goiás.