Conto: O valentão Jovino

“Não é bem uma mancha, quer dizer, é uma mancha, sim, mas não é como as outras que conhecemos, é mais uma pequena área de piso queimado com cimento e que há muito tempo possui esse macuco encardido, escuro, meio preto. A diferença é que isso não desgruda do chão nem à custa de reza”. Isso é o que costumam argumentar os mais velhos, talvez últimos contadores de causos, sobre uma imponente nódoa preta no chão de um tradicional barzinho da Vila Isaura. Um desses lugares em que a gente entra e joga conversa fora, esquece do tempo, bebe cerveja, uma pinguinha, joga sinuca, bebe outra pinguinha. Um bar assim, desses que encontramos em todas as cidadezinhas do interior de Goiás.

A questão é que aqui, sempre voltamos no mesmo assunto.

 

__ E essa manchona escura aqui?

 

Basta isso para aguçar o espírito dos mais empolgados e o causo outra vez ganhar vida nas vozes cinquentenárias que ainda nos brindam com belas explicações.

Não vale contar o enredo, sem antes tomar outro trago, aqui todos bebem, até o santo de vez em quando é agraciado com um pouco que é derramado por algum mais religioso, entre um gole e outro, claro que tem de ser das de Minas que o vendeiro só abre nessas ocasiões, então, depois dessa preparação e todos os ânimos concentrados, ressuscita o debate para determinar a tonalidade da cor da mancha.

__ Claro que é preta.

__ É mais para o lado do marrom.

Alguns juram que é cor de tacho em que fica diquada de cinzas de angico. Outros afirmam que é só um borrão meio escuro mesmo.

__É mais cor de burro fugido! Esse argumento que parece contentar a todos os presentes, finaliza a primeira parte do exercício.

 

Gerações passam, outras gerações vêm e lá está o borrão intrigante. Dizem que já lavaram e já esfregaram com detergentes diversos, fizeram simpatias, benzeram, fizeram despachos. E muitas e muitas novenas foram berradas em volta da nódoa que carantonha continua a zombar de nosso estranhamento.

 

Num momento seguinte, o assunto gira em torno de como e do quando tudo começou.

 

__Esse pretume é sangue, meu filho. É do sangue de homem que foi matado por tiro. Quando um homem morre por tiro, o sangue gruda desse jeito, não sai mais nunca.

Um dia ouvi da boca do seu Mané Cachimbo.

 

Muitos anos já se passaram, desde o dia em que ouvi essa história…

 

O início de tudo se deu quando o valentão Jovino tinha acabado de perder no jogo de carteado e estava que estava. Era sempre assim, ele só queria que entrasse o primeiro pela portinha do boteco. Duas balas dentro do copo…uma dose de pinga, mexer bem com o cano do três oitão. Quem entrasse no bar primeiro beberia. Ah! Se não bebesse? Beberia, sim, e era sem fazer careta.

 

Um garoto franzininho entrou, distraído. Comprar cigarro para o pai. Todos riram quando Jovino franziu a testa e engrossou a voz:

 

__O rapaz aqui vai beber uma comigo, não vai não marelinho?

__…

O moleque tremeu todo. Em seguida, a voz saiu espremida:

__Vou, eu vou levar o cigarro pro meu pai, seu, seu Jove…

__Deixa de gagueira moleque… aqui é por bem ou é por mal…

__ …

__ Bebe logo! Se guspir fora, bebe duas. O velho assustador ainda riu esganiçado com poucos dentes encardidos na boca, que custava ser vista em meio a barba mal cuidada.

__ …

 

O rapazinho fez alguns segundos de silêncio que pareceram séculos…

 

O trêmulo adolescente levou o copo à boca. Bebeu tudinho e todos riram… o garoto não disse palavra nenhuma… abaixou a cabeça e saiu.

O valentão continuou por ali… insultando um, provocando outro, humilhando outros e etc. até que entrou o amarelinho de novo e antes que o finado Jovino pudesse engrossar a voz para perguntar o que estava acontecendo. Levou dois tiros no peito. Naquele instante, ninguém riu e todos ficaram sem graça para o resto da vida. Até hoje todos ainda respeitam o Sr. João Alves Pereira dos Santos.

 

Quem diz isso é o seu Mané Cachimbo, e toma sua pinga de uma virada só e fica olhando enigmático para a mancha preta no chão do bar.

 

Claudio Bertode

Formado em Letras pela Universidade de Brasília, Cláudio Bertode é Poeta, Cronista e Educador na Rede Pública e Privada do Estado de Goiás.