Crônica: Comida padrão FIFA faz voluntários passarem mal

Quando abriram as inscrições para ser voluntário nos jogos da Copa do Mundo, fiz uma reflexão muito séria sobre os pontos positivos e negativos, vantagens e desvantagens de ajudar em tão sublime evento. Analisei cada possibilidade, ínfima que fosse, de crescimento pessoal, enriquecimento de currículo. No final, decidi que não haviam muitas vantagens para um educador de pés e mãos calejadas. E, como todo goiano, muito arisco com esses cavalos dados.

Depois de longo momento refletindo, percebi que uma das vantagens era que você ganhava alimentação de graça. Toda comida que conseguisse comer. E claro, comida padrão FIFA, alimentação de primeiro mundo. Não, não ganharia ajuda de custo, nem dinheiro para transporte, mas teria o direito de comer. Eu que gosto muito de comer, quase me inscrevi. E como eu fiquei feliz por não ter me voluntariado, sim, fiquei muito feliz de eu não ser um dos 15 mil voluntários da Copa do Mundo quando recebi a notícia de que a comida servida aos voluntários fez muitas pessoas irem parar no hospital. A não ser que tenham passado mal, pela comida padrão FIFA ser tão gostosa e, claro, comeram mais do que deviam. Ou talvez eu tenha me enganado e essa comida não seja tão boa assim. Sei lá.

Alguns mais idealistas argumentariam que estou exagerando e que mais do que fast food, o bom de ser voluntário é que estaria em jogo a exclusiva possibilidade de ter acesso a alguns jogos, aos bastidores padrão FIFA, ver como funciona a organização dos eventos padrão FIFA. Ter acesso a ensaios,  a treinos de reconhecimento de campo, às zonas restritas dos estádios construídos no padrão FIFA, aos atletas e treinadores. Eu, pessimista que sou,  responderia que só não poderemos esquecer de que todos assinam uma cláusula em que fica claro não ser permitido assédio de espécie alguma. E dentre os 15 mil voluntários, tem a questão de certas restrições conforme o cargo. É muito raro encontrar um voluntário com acesso a tudo. Em dia/horário de jogo, esse acesso fica ainda mais difícil por conta de segurança padrão FIFA e dos fiscais de organização.

Eu até lembraria de que o trabalho embora receba o nome de voluntário não é moleza não.  Ser voluntário é fácil, agora ser voluntário padrão FIFA, dependendo de suas habilidades, suas competências, etc. poderá estar, nesse momento, trabalhando no credenciamento, no protocolo, na venda de tickets, na logística, no suporte de idiomas, no serviço ao espectador, mídia (em campo, na zona mista ou no centro de mídia), marketing, serviços médicos e de fisioterapia, transporte, hospitalidade, atendimento a voluntários, recepção em aeroportos e hotéis, entre outras. Para falar a verdade, até fiquei fadigado de tanto imaginar a diversão dos voluntários da FIFA.

Olha, cabe lembrar que uma vez que estão auxiliando em tarefas significativas do bendito evento que deve acontecer milimetricamente no padrão proposto pela FIFA . Mesmo sendo brasileiro, terá de comparecer nos horários determinados e sem atrasos (algo muito difícil para um cidadão tupiniquim, eu sei). Ah, e não podem faltar, fiquei sabendo, inclusive que o voluntário fica mal visto em caso de atrasos e o voluntário poderá receber o que aqui em Goiás nós chamamos de “comida de rabo”, só que nesse caso será uma “sentada” padrão FIFA.  E todos deverão tomar cuidado, pois poderão prejudicar muito no andamento de jogos, já que, apesar do trabalho não ser difícil, é de extrema importância para o sucesso da copa da FIFA.

Para piorar, certas vezes, por estar trabalhando, perde-se a noção geral do evento. Como são vários locais onde os esportes são realizados, as vezes, o voluntário não sabe o que se passa em determinados jogos e acaba vendo um ou outro lance por telões ou TVS.  Além disso, dados e informações que costumamos ver nas coberturas televisivas são coisas que definitivamente os queridos voluntários não acesso durante os dias maravilhosos nos bastidores do submundo do torneio.

Sem falar que, na Copa do Mundo, também não é possível ver todas as partidas nos estádios. Querendo ou não, em algumas partidas você é um telespectador como qualquer outro. Às vezes, em horário de jogo, você está trabalhando em outro estádio ou em alguma função que não permite prestar atenção ao jogo.

Por isso tudo é que, ao meu ver, a única coisa vantajosa de fato seria comer de graça. Tudo bem que além de uma deliciosa alimentação, geralmente, o evento dá alguma lembrancinha no final dos jogos aos voluntários como forma de agradecimento. Na Alemanha foi um relógio, na África do sul foi um kit com mochila, Zakumi (mascote) de pelúcia e pins oficiais. A única coisa que me deixa triste é saber que o melhor de ser voluntário da Copa do Mundo, era poder comer à vontade, fugiu do padrão FIFA e agora os coitadinhos dos voluntários vão passar o resto da semana na fila do SUS, que no Brasil, não segue padrão nenhum.

Claudio Bertode

Formado em Letras pela Universidade de Brasília, Cláudio Bertode é Poeta, Cronista e Educador na Rede Pública e Privada do Estado de Goiás.