Brasil: um país órfão de heróis

Por Cláudio Bertode*

Somos tão carentes de heróis que até ao analisarmos diversos comportamentos de nós brasileiros, percebemos o insosso gostinho dos resquícios do ufanismo romântico, notamos uma singela resignação e uma distorcida percepção social. Somos obrigados a admitir, inclusive, a confusão entre o cumprimento de uma obrigação e um ato heroico, e, claro, tudo regado por nossa falta de uma consciência histórica mais ampla.

O Romantismo, no resto do mundo, foi um período de buscar as raízes, valorizar o nacional era a palavra de ordem. No Brasil, não tínhamos uma origem bonita de lutas e conquistas das quais nos orgulhássemos, éramos apenas brasileiros (Vislumbrados e resignados carregadores de pau-brasil) ou éramos pessoas de confiança da coroa portuguesa, cumprindo a missão de extrair o máximo da colônia (Por oportunismo ou comodismo ficamos por aqui), então, com “jeitinho”, com “carnavalesca malandragem”, idealizamos uma pátria, fizemos do índio uma figura extraordinária e cavalheiresca, fingimos até que a inconfidência era um ato patriótico, liderado por um mártir que lutava por um interesse coletivo.

Não fomos capazes de perceber que Tiradentes nunca fora líder de nada, foi só um “bode expiatório”, que foi martirizado e punido, sim, mas que de líder não tinha muita coisa, os verdadeiros líderes da Inconfidência, Tomás Antônio Gonzaga, Cláudio Manuel da Costa, dentre outros (cabe lembrar que estes foram apenas exilados) defendiam interesses de grupo, pois bem, mas não chegaram a ser seletos heróis lutando pelo povo brasileiro. Lutavam? Claro que lutavam, contudo, por interesses próprios, não pagar o imposto que a coroa de Portugal exigia que fosse quitado. Mas o povo, esse nunca participou de nada disso.

Como queríamos que D. Pedro fosse um príncipe guerreiro, montado em cavalo branco, lutando por interesses patrióticos, coitado, defendeu o oportunismo e o egoísmo de uma pequena elite que queria dar um golpe na Monarquia Portuguesa. Princesa Isabel, que assinou uma lei áurea na tentativa de manter e salvar a coroa, pobre princesa, que nem por um momento, em sua áurea lei, cogitou que também necessário, além abrir as senzalas, seria primordial a concessão de terras, escolas, a cidadania, a honra e uma mínima condição de vida aos libertos. Lembrem-se, todas as terras pertenciam à monarquia, mas nunca houve um interesse de fazer justiça social verdadeira.

Deodoro da Fonseca não foi nada heroico quando não proclamou uma república para a nação brasileira, mas, sim, para uma pequena parcela de pessoas, novamente oportunistas e conservadores, que não passava de 1% da população e que decidiram dividir todas as terras da corroa para si mesmos e os outros 99% da população ficaram sem nada.

Alguns dos tantos miseráveis que nem sabiam o que significava uma república (aliás, muitos) morreram de doenças e miséria (só no Nordeste, foram mais de 100 mil mortes devido à fome, à seca), outros morreram de doenças, muitos a “linda” república dizimou com armas (a exemplo de Canudos em que foram mortos mais 15 mil pessoas exterminadas pelo exército republicano e, claro que esse não foi o único desses massacres promovidos, foi apenas, um dos únicos que tivemos um Euclides da Cunha para documentar).

A maioria esmagadora dos que hoje figuram nas versões oficiais da história do Brasil, como heróis, lutavam por seus grupos, todavia afirmar que foi tudo realizado em prol da nação, isso é um tanto quanto forçado. Por isso, não justifica esse orgulho ufanista que os livros didáticos tentam impor às nossas crianças.

A grande massa da população aprende, desde cedo, que os grandes feitos, desses supostos “heróis brasileiros”, fizeram deles figuras grandiosas e, que por isso, seus descendentes merecem o Brasil inteirinho só para si. A imponente classe A, que descende dos grandes heróis da nação merece possuir todas as terras, todos os privilégios, todos os altos cargos políticos, merecem tomar todas as decisões, merecem todo o conforto. Daí ser fácil perceber a instauração da rançosa classificação de pessoas. Como se um ser humano pudesse ser melhor que outro e por isso merecer mais oportunidades. Um ser humano tipo C, deve se resignar em no máximo receber uma esmola do Governo, tudo isso resultado da problemática injustiça histórica, que levou a uma estratificação social, pior que isso, esse jogo psicológico quer também perseverar a resignação social por parte dos injustiçados, às vezes, até vemos como heróis as pessoas que tinham num determinado momento tudo para fazer a diferença, mas que oportunamente, lesaram nossos direitos.

Até o grande Vargas, a quem chamamos de “o pai dos pobres” (Pai da classe C?).  Esse, grande pai, na verdade, deixou de fazer a verdadeira revolução, mais que isso, ele calou o que poderia ter sido uma revolução em 1930. O momento era mais do que propício para corrigir o erro que começou quando a princesa Isabel assinou (assassinou?) a Lei Áurea. Conforme mencionamos, a família imperial não concedeu terras aos milhares de ex-escravos, nem à grande porcentagem de desvalidos descendentes de índios ou de famílias pobres vindas de Portugal. Concedeu o usufruto das riquíssimas terras desse país à pequena elite que sempre predominou sobre todos os grupos sociais em termos de direitos, cargos, educação e tudo mais.

Antes de analisar os tropeços de Getúlio, enfatizamos que o erro persistiu quando os republicanos deram o golpe na família imperial, novamente, nada de uma divisão justa dos espólios da coroa. Não dividiram as terras de maneira igualitária, o que poderia ter gerado, sim, uma verdadeira república.  Para piorar, a república de Deodoro, descaradamente nomeou como cidadão, apenas quem era “proprietário” de terra (lembrando que ninguém era proprietário, uma vez que tudo pertencia à coroa, a república quis distribuir de maneira injusta e pronto), quem plantava café ou criava gado, eram os únicos considerados cidadãos.

Vargas, tomou em suas mãos o poder de corrigir essa injustiça, mas o que foi feito? Apenas esmolas como carteira de trabalho, salário mínimo. Apenas migalhas de concessões, nada que devolvesse ao povo o que era dele por direito. Durante os 15 anos da era Vargas e sua ditadura, foram apenas para fazer o povo se resignar com a situação injusta, aceitar que alguns (os seres humanos classe A?) tinham mais direitos que outros, uns direitos sobre as riquezas e terras e outros, apenas direito de trabalhar para comer e não choramingar.

O grande pai foi, na verdade, um mecanismo que emperrou a correção social da nossa história. Foi apenas uma farsa para calar a voz dos que lutavam de verdade por uma revolução e seus nomes ou são omitidos da história oficial ou, no máximo, citados ou como bandidos (revoltosos) ou poucas linhas gerando uma ambiguidade de interpretação.

E a exemplo de Vargas, todos os políticos vêm fazendo falsas políticas de redistribuição de rendas, políticas falsas de correção de injustiça histórica como cotas raciais, cotas sociais, prounis, fies, bolsas universitárias, casas minhas vidas, bolsas famílias, cheques moradias, cheques reformas.

Essas esmolas não corrigem o que de fato foi tirado dos antepassados desse povo tão sofrido. Essa camada mais pobre, que vai da classe média até os grupos que estão abaixo da linha da pobreza, vem sendo roubada desde o momento da proclamação da república até nossos dias. Se bem que a classe média não existia quando se proclamou a república, uma vez que só existia, no país, a nobreza oligárquica e o resto (ex-escravos, descendentes de índios, miseráveis diversos vindos de Portugal, imigrantes diversos) e, claro, todos analfabetos, até por que educação era um luxo apenas da nobre classe quem sabe por direito divino detinha todas as riquezas e mordomias.

E não adianta fingir preocupação, não há uma política de fato para corrigir o que foi tirado dessa grande maioria de brasileiros. A única maneira seria os que ficaram com tudo, abrissem mão do que pegaram sem ter direito. Se o Brasil é de todos, por que apenas um pequeno grupo dividiu todas as riquezas entre si quando foi proclamada a linda e democrática república? Cota universitária corrige isso? Casinhas na beira de encostas corrige isso? Bolsa família corrige isso? Enes políticas de redistribuição de renda? Não. Só uma verdadeira reforma agrária corrigiria. E isso nunca vai acontecer. Nunca.

Temos uma cultura de conformismo que nos faz acreditar que sempre houve uma luta no país entre comunismo e capitalismo, o que jamais ocorreu. Não existe e nunca existiu mártires comunistas ou heróis capitalistas. As versões destoam. Os que se afirmam esquerda comunista se julgam mártires lutando pela revolução e os bravos capitalistas se julgam vitoriosos e empreendedores carregando o desenvolvimento do país nas costas. Geram empregos, pagam férias, décimo terceiro, licença maternidade. Simples distorção ideológica. O Brasil é capitalista e pronto. Só que nunca houve um projeto ou nem um leve cogitar em ser um capitalismo justo em que todos tivessem condições e oportunidades iguais, isso já seria querer muito, alguns dirão. O que de fato existe é puro e simples um grupo conservador e que quer manter a ideia de que tudo lhes foi dado e que por isso devem ser recompensados de forma que sejam colocados como heróis que trabalham pela nação. Devem ser os beneficiários de todo o PIB nacional, todo investimento deve contemplá-los de alguma forma. Caso isso não ocorra, blasfemam, choramingam. E não importa quem esteja governando. Esse grupo conservador é quem dá e sempre dará as cartas. É a velha máxima de que a noiva será sempre a mesma com um penteado diferente. Não existe heróis da esquerda ou da direita. Não há PT ou PSDB. O que há é o grupo rico e enriquecido de conservadores e a nação pobre nas orlas de todo esse desenvolvimento. À margem de tudo e de qualquer direito. E não importa quem suba ao poder, terá de prestar contas a esse grupo dominante. Caso contrário, seu poder não durará muito. Todos no final das contas serão como D. Pedro, serão como a Princesa Isabel, serão como Deodoro, serão como Vargas, serão como os Militares que foram os que mais fizeram a lição de casa, endividando o país para deixar quem já era rico muito mais rico e empobrecendo ainda mais quem já era pobre. Chegando-se ao cúmulo de a riqueza brasileira estar concentrada nas delicadas mãos de apenas um pouco mais de 10% da população.

Mas e nossos verdadeiros heróis? Toda nação precisa desses modelos superiores. Nossa carência é tão grande que chegamos ao cúmulo de confundir um simples cumprimento de uma obrigação, com um ato de heroísmo, como desejamos na pessoa de Joaquim Barbosa, a figura de um herói, apenas por que julgou alguns criminosos de um esquema de corrupção chamado mensalão. Mas na verdade, era cumprimento de obrigação. Ele era ministro do STF e cabia a ele e aos outros ministros da Suprema corte (Não fez nada sozinho) tomar as decisões finais nas sentenças. Alguns até cogitaram que ele seria o perfeito candidato a presidente ou senador.

A bem da verdade, bem que poderia, o mensalão ser o único ato de corrupção de nosso Brasil, com a prisão destes envolvidos festejaríamos livres de todos atos criminosos das administrações públicas. Infelizmente, muitos outros casos semelhantes não estão sendo julgados pelo mesmo STF que já foi liderado por Joaquim Barbosa: (Demóstenes, mensalão do DEM, Mensalão do PSDB, crimes que estão quase prescrevendo e nada de julgamento). Aliás, a pena para os mensaleiros, foi ridícula. Apenas dormir na cadeia, por uns aninhos, comparado com todo o rombo nos cofres públicos. Mesmo assim, ficamos engrandecidos e muito agradecidos com o ato insignificante do STF. Acostumamos tanto com aplicação injusta da lei que aplaudimos quando uma pequena gota respinga como punição sobre um poderoso.

Mas não se enganem, mesmo quando um poderoso é julgado, ainda será com outra medida.

A história oficial é sempre contada pela visão dos vencedores. Essa máxima só falha em um ponto: os poucos que estão no poder de uma nação detêm nas mãos mais do que o privilégio de ditar a versão oficial da história, também têm o poder de omissão de detalhes importantes, escondendo injustiças, enfatizando apenas o conveniente.

Mais que isso, possuem, inclusive, o poder de impor também o conceito do que seja o herói nacional. Assegurando, assim, somente nomes pré-escolhidos dentre eles como símbolos nacionais, como modelos de cidadãos exemplares os quais, a força da repetição, figurarão como verdadeiros mártires, serão admirados por adultos e crianças, serão para sempre lembrados.

Essa lista enorme de nomes vem estampada em todos os livros didáticos adotados em nossas escolas. Nomes decorados e homenageados todos os anos em datas comemorativas e feriados nacionais. Embora didaticamente vistos como heróis, alguns desses nomes não suportariam uma análise a luz de um verdadeiro conceito do que seja ser herói, muito menos que isso, não suportariam uma pesquisa mais científica dos fatos históricos.

Deparamo-nos diante desse duplo paradoxo: uma elite que é mais vilã do que heroica, que por todo seu poder, no entanto, e por sempre sair vencedora em todas quedas de braço em que envolve cidadania, sequestrou para si o direito de fazer com que sua versão da história brasileira seja a única aceita como verdade. Do outro lado, temos uma maioria pobre, inclusive de espírito, humilhada, resignada, o eterno coitadinho, roubada de todas as formas por mais de 400 anos em termos de cidadania e que se perde entre a covardia e a discussão errônea de ideias comunistas em um país que possui uma das maiores economias capitalistas do mundo.

Sim, infelizmente essa constatação pessimista é uma daquelas verdades rançosas que não queremos amargando nosso apurado paladar, todavia é assim que somos: uma nação que vive em um país carente de heróis de verdade. Tomara que as futuras gerações façam melhor do que nós, que cometam erros, claro, pois todos erram, mas que fujam desses clichês nietzschianos.

* Formado em Letras pela Universidade de Brasília, Cláudio Bertode é Poeta, Cronista e Educador na Rede Pública e Privada do Estado de Goiás.

 

 

 

Claudio Bertode

Formado em Letras pela Universidade de Brasília, Cláudio Bertode é Poeta, Cronista e Educador na Rede Pública e Privada do Estado de Goiás.