CONTO: Biografia simplificada de um marqueteiro dos anos 70

 

I

 

Depois de seis meses sem conseguir decorar nem o abecê nem o abecedário nem as vogais abertas nem as fechadas, meu pai desistiu de andar duas léguas e meia até a escolinha do MOBRAL.

O velho meu pai não conseguia entender porque o Ivo tinha visto a uva-viuva-vela-vila-vala-vaca. Não aceitava que o Lulu era da Lalá-lele-lili-lolo-leite-lua-livro-lavra-leva.

__Meu filho, vai lá e explica o caso por bem expinicado pra dona Alexandrinha.

 

Lá então fui eu com a missão mobrálica de fazer entender à dona-cinquentenária-Alexandrina que a cabeça do meu pai não dava para estas estripulias de aprender a ler e escrever, uma vez que cavalo velho não aprende mais a marchar.

 

Dona Alexandrina veio me receber na porta com seu vestido florido mostrando os joelhos de dezenove anos e não era nem dona nem senhora: era senhorita, por favor. Nem tinha namorado, estava terminando o último ano da Escola Normal Almirante Bonfim: era uma das cento-e-vinte-e-cinco-moças-de-sainha-preta-e-blusinha-branca que passavam em frente à minha escola de contabilidade. Ela até já tinha me visto sentado com mais cinco rapazes assoviando para as mocinhas da Escola Normal, quando passavam…

 

Acompanhei a senhorita Alexandrina até a casa dela, onde morava perto da igreja, com seu pai, sua mãe e a vozinha magrinha que ficava sentada no pilão e pedindo água, café, cigarro não podia, mas pedia assim mesmo e dizia palavrões.

 

A vozinha da Alexandrina disse que o namorado dela era bonito, apontando para mim: a normalista ficou vermelha e mais bonita.

 

Combinei que eu voltaria outras vezes para conversar mais com a avó dela…

 

 

 

II

 

Minha esposa, a linda professora do MOBRAL para velhos rudos, fez o discurso da formatura da Escola Normal Almirante Bonfim. Nem era ainda minha esposa, era uma das cento-e-vinte-e-cinco-moças-de-sainha-preta-e-blusinha-branca do paraíso das normalistas que passavam e passeavam em frente minha Escola-de-Contabilidade-Padre-Dom-Fernando: um careca-calvo que ficava numa foto na parede do diretor.

 

III

 

Nos casamos numa tarde com muita chuva, mas ela insistia que eu dançasse a valsa dos noivos e não olhasse para baixo que ninguém notaria eu não saber dançar.

 

 

IV

 

Alexandrina nem se importou quando decidimos que ela ia me ajudar na campanha para Prefeito do seu Pedim Firmino, primo do padrinho de minha mãezinha, o Didim Antoim, a prefeito da cidadezinha com poucos mil habitantes e não ia mais lecionar no MOBRAL para aquele bando de analfabetos babões que ficavam sonhando com as pernas dela.

V

Minha esposa me acompanhou em todos os dezenove comícios e ela mesma me ajudava a distribuir os pães com carne moída. Carninha temperadinha que o Didim Antoim já trazia prontinha, era só pôr no pão francês mesmo, que era mais barato, povo nem nota qualidade, aliás de graça todo mundo gostava, pior se fosse injeção na testa, mas até que seria possível que viriam alguns querendo.

Didim Antoim ria gostoso dizendo esses incentivos a nós homens de campanha com o sacão de pão, até criança e velhinha banguela comendo, pegando santinho, eita-nós-cabos-eleitorais-dos-melhores.

 

VI

 

Seu Marcel Di Ribas, era o outro candidato, distribuindo remedinho, a filha dele usava calça comprida, esquisitona, onde já tinha visto mulher vestir calça de homem?

Até meu pai ria…

 

A ARENA era o partido dos Poliças do exército militar que afirmavam cuidar da pátria e podiam não ser amados, mas eram bem armados até os dentes e candidataram o seu Marcel Di Ribas da farmácia-quase-médico, receitava Ácido Ascórbico Salicílico até para prisão de ventre. Era amigo das famílias velhas. Tinha mais de cinquenta anos e tinha uma barriguinha de lobó que teimava em estufar os botões das camisas de tergal que ele usava como se fosse um hábito religioso.

 

VII

 

Seu Pedim Firmino, nós aclamamos pelo nosso querido MDB que na época nós do interior de Goiás nem sabíamos o que significava, mas precisávamos de alguém para enfrentar a ARENA sem nem falar em convenção, homem bom até que se provasse o contrário, fazendeiro de fazendonas no estado todo, caminhonetona azulegada com farolzão e tudo.

Na época eu era bem novo, só tinha uns vinte-e-poucos e uma esposa formada pela Escola Normal Almirante Bonfim, eu tinha também um certificado de Técnico em Contabilidade em uma cidade de cinco mil habitantes e que já tinha o contador Elias, sobrinho do homem mais rico e respeitado da cidade, o Sr. João Alves , que a gente desde pequeno aprendia a chamar de coronel, mas pelas costas todos chamam mesmo é de João-sem-nó e aqui ainda tem o contador Rufino, com seu grisalho bigode cinquentenário e confiável…

 

VIII

O candidato da ARENA, o tal Marcel-Di-Ribas, com explicou Didim Atoim, a mim e minha esposa, a gente ia vencer era pelo cansaço. Ele distribuía Ácido Ascórbico Salicílico e rádio-de-pilha-Motor-Rádio, seu Pedim distribuía pão-com-carne-moída.

Ele passou a distribuir farofa; minha mãe teve a ideia da paçoca-de-carne-seca-socada-no-pilão-da-vó-da-Alexandrina. A mão de todo mundo lá em casa calejou: até a do meu pai que não ia muito com a cara desse negócio de política.

 

O “Coronel” seu João-sem-nó não tinha partido, mas seu Pedim era irmão da esposa, dele lá, era um pouco baixota e sempre com xale de lã no pescocinho… o Sr. João também me conhecia desde pequeno, velho amigo do meu pai, então deu a ideia da leitoa para ajudar em qualquer coisinha.

Ajudou que a dona Maria doceira precisava de uma leitoinha para engordar, então aceitou dizer pela cidade toda que a farofa da barraca do Marcel Di Ribas fez muito mal para seu intestino.

Subiu, um dia, seu Pedim Firmino, no palanque da praça e disse que comida estragada era lá no comitê do Ribas; aqui era a paçoquinha-paçocada-no-pilão-sadia. Se desde já o Ribas dava comida estragada, imaginassem depois da eleição…

Eu não tive a capacidade de criar o bordão: “FIRMA SEU VOTO NO FIRMINO”, mas eu ajudei amarrar a faixona lá entre as duas arvorezinhas do entremeio da passagem da guapeva-assada.

 

 

A filha do Ribas era uma das únicas mulheres da cidade que depois de ir estudar na capital voltou usando calça-comprida.  Seu Pedim Firmino, perguntou ao povo se poderia confiar em um senhor cuja filha usava calça-comprida… foi no mesmo dia que, ao passar na pracinha, ela ficou me olhando de olho comprido, sardentinha de olho azul, mas esquisitinha com calça comprida e tudo… nem adiantava ela querer… além que eu era casado, ainda ia que todo mundo soubesse…

Mulher de calça comprida, mas era só o que faltava mesmo! Esse comentário foi do Didim Antoim…

 

 

IX

 

Como sempre diz o João-sem-nó: existem os forantes…

 

Acredite, seu Pedim Firmino perdeu a eleição ganha. O Ribas era o candidato da ARENA, a ARENA era o partido dos protegidos dos poliças.

O povo votou no Pedim, mas quem contou os votos foram os poliças que vieram a caráter na ocasião para que não houvesse motim nem montão na hora de entrar na seção.

 

O violeiro Juquinha jurou que viu até gente que já havia sido despachada para o outro mundo votando e tinha gente com três títulos e tinha urna sendo aberta para mudar voto já votado…

 

Depois da eleição perdida, seu Pedim Firmino me explicou que hoje vai, amanhã vem.

Depois disso seu Pedim Firmino foi cuidar das fazendonas dele lá pelos lados de onde ainda ele é o mandão e eu fiquei por aqui mesmo pensando que esse negócio de política é muito complicado, melhor mesmo é jogar um joguinho de baralho com os amigos, ouvir o Juquinha tocar viola e contar mentiras e nunca mais querer saber desses negócios de política.

 

Claudio Bertode

Formado em Letras pela Universidade de Brasília, Cláudio Bertode é Poeta, Cronista e Educador na Rede Pública e Privada do Estado de Goiás.