A massificação e classificação de seres humanos

                  Haverá uma era em que um ser humano será apenas um ser humano? Uma sociedade justa e o equilíbrio se dará por relações de respeito, tolerância e igualdades de oportunidades? Independente de cor de pele, sexo, sexualidade, religião, patrimônio, etc?

                   Talvez um dia cheguemos bem próximo de uma sociedade ideal, porém, por enquanto o momento é crítico, muitos, no entanto, tentam afirmar e afiançar que basta lutar, que basta sonhar, que basta força de vontade e perseverança para conseguirmos alcançar objetivos. Uma farsa em torno da palavrinha bonita “MERITOCRACIA”.  Mas a grande pergunta, ao final será sempre a mesma: ‘Que tipo de ser humano você é? É do tipo A? Do tipo B? Do tipo C?”. E por aí vai.

A tarefa primeira de quem se reconhece humano, na sociedade meritocrática, é aceitar que existe uma classificação sim e que foi feita antes do seu nascimento. Essa aceitação deve vir com uma boa dose de resignação. Seria e será preciso aceitar que o conceito do que merecemos é relativo. A MERITOCRACIA  é diferente em cada grupo social. Um ser humano classificado como A, ele terá mais oportunidades e terá o privilégio de consumir e usufruir de uma vida tipo A. Sim, em todos os níveis de consumo existem produtos para o alfabeto inteiro de grupos sociais. Existem até produtos e marcas destinadas especificamente para quem a sociedade nem permite viver, pessoas abaixo da linha da pobreza e que apenas trabalham para sobreviver.

Quando um indivíduo de um grupo C ou D chega a algum patamar que era destinado a classe A, pode ter certeza de que virará notícia na grande mídia. Será olhado como um belo exemplo de superação e resiliência. Isso por ser algo que causa estranhamento. Não era para ser assim, não é uma desenvoltura normal, é só um simples acaso, tipo quando um touro fere um toureiro em uma arena em que já estava traçada a morte do touro.

Um ser humano do tipo C não terá as mesmas oportunidades, as que surgirem serão bem escassas e o mercado consumidor oferecerá um cardápio de produtos também do tipo C. Seu conforto, o tratamento recebido pelo poder público também será do tipo C. Tudo em sua vida estará moldado em uma qualidade inferior, seu atendimento médico não será feito por planos de saúde, será oferecido de maneira paupérrima pelo poder público que o fará com muita má vontade.

Até o olhar da classe A é diferente em relação as transformações históricas e em relação a atos heroicos. A grande massa da população aprende, desde cedo, que os grandes feitos dos heróis brasileiros fizeram deles figuras grandiosas e, que por isso, seus descendentes merecem o Brasil inteirinho só para si.

A imponente classe A, que descende dos considerados heróis da nação, incita e suscita uma lógica perversa de que por esse motivo, merece possuir todas as terras, todos os privilégios, todos os altos cargos políticos, merecem tomar todas as decisões, merecem todo o conforto, inclusive, alguns chegam a requerer perante às leis outra medida quando são julgados. Daí ser fácil perceber a instauração da rançosa classificação de pessoas.

Como se um ser humano pudesse ser melhor que outro e por isso ser normal obter mais vantagens, mais respeito, mais influência. Um ser humano tipo C, deve se resignar em no máximo receber uma esmola do Governo, cotas, bolsas isso e bolsa aquilo, vale gás, cheques moradias, cheques reformas, casinhas, tudo isso resultado da problemática injustiça histórica, que levou a uma estratificação social, pior que isso, esse jogo psicológico quer também perseverar a resignação social por parte dos injustiçados.

Às vezes, até vislumbramos como heróis pessoas que só fazem da sociedade um lugar pior do que deveria ser. Pessoas que tinham, até mesmo por obrigação de cidadão, num determinado momento tudo para fazer a diferença, mas que oportunamente e forma egoísta, lesaram nossos direitos, pessoas que só aparecem na porta da pobre classe C quando é época de eleição. Chegam com falas bonitas e os chamados santinhos para pedir um voto. Ah, se a classe C soubesse que é com esse mísero voto que poderiam fazer a diferença na sociedade.

Claudio Bertode

Formado em Letras pela Universidade de Brasília, Cláudio Bertode é Poeta, Cronista e Educador na Rede Pública e Privada do Estado de Goiás.