A incrível cidade que são duas e tem lago seco

Todo lusco-fusco a mesma cena antropofágica se repete. O sol é devorado pelo grande caracol que repousa e protege a cidadezinha com suas casinhas, que daqui de cima dessa serra, parecem barraquinhos de papelão. Minúsculas maquetes que formam uma versão infantil da vida urbana. Daqui se consegue ver a Vila Isaura, velha vila com suas casas com árvores e quintais. Suas crianças brincando do velho e bom pique esconde. Esse ritual nos dá a certeza de que a vida em algum ponto de sua engrenagem de modernidade, definitivamente parou.

A igreja construída por escravos e outros miseráveis. Os asfaltos esburacados e o medo das donas de casa de pisar no bêbado deitado na calçada de um armazém. Quando o dia vai amanhecendo é engraçado como sua claridade vem lambendo a rua dez até chegar no lago. Lago infinito que nunca foi terminado. Obra das obras, administração vem e outra vai. Projeto muda, nova verba é devorada em poucos meses e o grande buraco no meio da cidade recebe o nome de lago, embora nunca ninguém explicou de onde tiraremos água para enchê-lo. Muitas teorias e poesia a esse respeito, algumas explicações chegam a beirar o campo do mitológico. Já afirmaram que buscarão água da serra em canos e tubos para encher o monumental buraco, chamado carinhosamente de: o lago.

Lembro que na Paulo Alves haviam umas palmeiras enormes, talvez só parecessem tão grandes por eu ser criança. Verdade seja é que suas folhas eram guloseimas muito apetitosas que atraiam lagartas que pareciam cabulosas aos meus olhos e que eram muito habilidosas na arte de deglutir. Aos poucos as folhas ficavam carcomidas e em fiapos cheios de mordidinhas. Algumas senhoras evitavam passar por ali com medo que alguma pudesse cair em suas cabeças. E, claro, que uma ou outra despencava e saia em disparada pela irregular calçada com uma e outra pedra solta, sujas calçadas de lodo esverdeado.

Toda essa lembrança infantil traz um paradoxal sentimento e desconforto inevitável ao meu olhar adulto de hoje. Hoje, o passado convive com construções ultramodernas, é comum vermos casas caindo aos pedaços, com evidentes traços barrocos, ao lado de monumentais sobrados de arquitetura pós-moderna.

É comum carroças cruzarem com carros importados bem no centro da cidade. Parece que Jaraguá são duas, dois corpos siameses lutando desesperadamente para se levantar, mas bem de perto notamos que é um corpo único, porém de duas cabeças. Cérebros que pensam diferente, cada um quer ir para uma direção. O antigo querendo ficar em paz, imóvel, sem mobilidade alguma, já a outra cabeça, jovial quer seguir, quer se levantar, quer correr, escalar a Serra, que aos meus olhos será sempre essa velha encurvada com uma trouxa de roupa na cabeça.

Essa cidade mais nova quer comer, devorar as matas ciliares do misterioso rio das almas. Essa cidade mais imponente é mais patética, quer demonstrar poder e riquezas. A cidade antiga é simples, é bela por assim dizer. Seus lotes com dezenas de árvores frutíferas, que daqui alguns anos serão lembranças de poucos moradores.

A queda de braço entre essas duas cidades continuará até o dia que o patrimônio histórico perder a disputa para a ambição de alguns empresários que é muito maior que o senso de preservação dos que possuem as últimas almas de poeta deste município. Muitos olham os casebres carcomidos e precisando de preservação como uma oportunidade perfeita para demolição e construção de um projeto que demonstre seu ego megalomaníaco.

Alguns, bem poucos, olham e veem uma oportunidade de salvar o que restou da dignidade da antiga Jaraguá dos pioneiros. Esse sentimento perde terreno para as grandes fortunas que se acumulam e jorram do arranjo produtivo que aflora tanto em maravilhosas e faraônicas fábricas de calça Jeans, como também estão por todos os fundos de quintais. Outro motivo para que não tenhamos mais quintais com árvores frutíferas, pois qualquer restinho ou cantinho de quintal serve para que se construa um puxadinho, um barracão, um galpão para fazer cata de linha, acabamentos, facções.

Assim, é minha cidade. Poética e triste, simples e complexa. Uma cidade em minha memória e essa cidade agora, cidade que desconheço e me faz ser estranho a mim mesmo.

Claudio Bertode

Formado em Letras pela Universidade de Brasília, Cláudio Bertode é Poeta, Cronista e Educador na Rede Pública e Privada do Estado de Goiás.